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A Europa que arde não é paisagem

Análise · Clara Verdi O número, bruto e seco, fala por si: 330 mil pessoas.

A Europa que arde não é paisagem
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O número, bruto e seco, fala por si: 330 mil pessoas. É a população de uma cidade média, um êxodo forçado pelo fogo que avança sobre o sudoeste da França e a Espanha central. As imagens que chegam — o céu laranja sobre Bordeaux, a coluna de fumaça vista de Madri — são tratadas como postais de um desastre sazonal, a tragédia de verão que logo dará lugar a outra. Mas o que arde ali não é a paisagem de cartão postal para turistas. É a materialização de uma displicência política que se tornou, ela mesma, uma força da natureza.

Não há surpresa real. Os discursos oficiais se acumulam com a previsibilidade das estações. Emmanuel Macron promete reconstruir, Pedro Sánchez prioriza salvar vidas e aponta para a “emergência climática”. Palavras justas, mas que soam ocas diante de uma catástrofe que não é um raio em céu azul, mas o resultado de um processo longo, conhecido e documentado. A temperatura média na região da Gironda, 7,3 graus acima da marca histórica, não é um dado conjuntural; é um veredito. É a febre de um continente que por décadas tratou o futuro como um conceito abstrato, uma conferência em Genebra, um protocolo a ser assinado com pompa e circunstância.

O que se vê agora é a fatura. A mobilização de militares franceses, o pedido espanhol por aeronaves italianas e gregas no âmbito da União Europeia, tudo isso é a gramática da gestão de crises. É a reação, competente e necessária, ao fato consumado. Falta, porém, a política no sentido mais nobre, aquela que antecipa o incêndio em vez de apenas combatê-lo. A Europa, que se orgulha de sua capacidade de planejamento e de seu estado de bem-estar social, assiste a uma área do tamanho de uma metrópole queimar, em uma das maiores devastações em solo francês desde a Segunda Guerra. A guerra, agora, é outra.

Aqueles 330 mil deslocados, confinados, atendidos em postos de emergência, não são estatísticas de um boletim climático. São a face humana de uma abstração. São a prova de que a "emergência climática" deixou de ser um slogan para se tornar o endereço de alguém, a casa carbonizada, a vinha perdida. O fogo que avança sobre os pinhais e ameaça os subúrbios de Bordeaux não é apenas uma ameaça ecológica. É o fim de uma certa ideia de segurança e previsibilidade que fundou o projeto europeu do pós-guerra. Uma ideia que, sob o sol implacável de julho, se revela frágil. E inflamável.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Incêndios na França e Espanha deslocam 330 mil pessoas

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo