O fim do último menino
Análise · Marcos Tibúrcio O homem de 34 anos disse, enfim, que não queria mais.
Análise · Marcos Tibúrcio
O homem de 34 anos disse, enfim, que não queria mais. Falou na Vila Belmiro, o palco onde tudo começou, depois de uma noite de Sul-Americana contra um time venezuelano — um cenário quase doméstico para um drama de alcance mundial. E assim, com uma frase seca, sem pompa, Neymar encerrou seu tempo na seleção brasileira. “Meu momento na seleção brasileira eu acho que já foi”. O verbo, no particípio, soa definitivo como um apito final.
É um adeus que vinha sendo ensaiado há anos, em cada entrevista pós-derrota, em cada suspiro de cansaço. Mas o anúncio, agora formalizado, não chega como um alívio, e sim como a constatação de um vazio. Por mais de uma década, o futebol brasileiro foi Neymar. Seus dribles, suas contusões, seus gols, suas polêmicas. Ele foi a esperança e, não raro, o espelho das nossas frustrações. O talento que nos lembrava de quem fomos e o personagem que nos mostrava quem nos tornamos.
Neymar se despede como o maior artilheiro da história da seleção na contagem da FIFA, superando Pelé. O número, 80 gols, é imenso. Mas a história não se escreve apenas com planilhas. A ausência de um título de Copa do Mundo em quatro tentativas deixará para sempre um asterisco em sua biografia. O ouro olímpico de 2016, no Maracanã, foi a catarse de uma geração, um momento de glória inegável. A Copa das Confederações de 2013, um relâmpago de promessa. Mas a Copa do Mundo é outra coisa. É a medida dos imortais.
Sua jornada nos Mundiais é a crônica de um desencontro. A fratura em 2014, as quedas para Bélgica e Croácia, e agora a despedida melancólica, como coadjuvante, contra a Noruega. O destino lhe deu um talento assombroso e uma era de coadjuvantes. Ele carregou o piano, a partitura e, muitas vezes, a culpa pela desafinação da orquestra. Viveu a maldição de ser único em tempos coletivos.
Carlo Ancelotti, o técnico, já fala em montar “um novo time”, em mesclar jovens com veteranos. É o que se diz quando um rei abdica. Mas a verdade que a arquibancada sabe, e que a cartolagem finge ignorar, é que não há outro Neymar na fila. Não com aquele um-contra-um, não com aquela capacidade de transformar um jogo medíocre em espetáculo. O próximo ciclo começa sem um protagonista definido, uma tela em branco onde antes havia um retrato vívido.
Ele diz que “deu o sangue, a vida”. E deu. Mas o futebol, esse deus cruel, exige mais. Exige troféus que ele não ergueu. Neymar sai de cena deixando um recorde e uma pergunta. O que teria sido se…? É o epitáfio dos grandes que não foram campeões do mundo. A história foi feita, como ele mesmo disse. Resta saber se, para o torcedor, ela terminou completa.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · ge