O Evangelho Segundo Alckmin
Análise · Luciano Aragão A frase, de tão repetida, virou quase um artigo de fé no governo: “reciprocidade não é retaliação”.
Análise · Luciano Aragão
A frase, de tão repetida, virou quase um artigo de fé no governo: “reciprocidade não é retaliação”. Foi o que disse o vice-presidente Geraldo Alckmin, nesta terça-feira, ao lado do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. A dupla acabara de sair de uma reunião com empresários que, neste momento, fazem as contas dos prejuízos causados pela sobretaxa de 25% imposta pela gestão de Donald Trump a produtos brasileiros.
Alckmin, com a serenidade de quem já viu crises comerciais de naturezas diversas, sacou do repertório um provérbio para tranquilizar a plateia. “Olho por olho pode acontecer de os dois ficarem cegos”, afirmou. A mensagem é dupla. Para fora, avisa Washington que a resposta brasileira será institucional, amparada por uma lei aprovada por unanimidade no Congresso no ano passado, e não um espasmo de nacionalismo. Para dentro, busca acalmar os setores produtivos, que temem os efeitos colaterais de uma guerra comercial declarada contra o maior parceiro do hemisfério.
Enquanto a diplomacia semântica tenta enquadrar o debate, a máquina do Executivo se move para mitigar os danos. O pacote de ajuda que está sendo finalizado é uma tradução pragmática da angústia do setor exportador. Envolve linhas de crédito via programa Brasil Soberano, flexibilização do regime de drawback para quem perder contratos nos Estados Unidos e até a possibilidade de ajustar metas de manutenção de empregos. É o governo sinalizando que, se a demanda externa falhar, haverá um colchão doméstico para amortecer a queda.
Os números justificam a mobilização. A tarifa americana, com potencial de chegar a 37,5%, atinge uma fatia de 18% das exportações brasileiras para os EUA, o que representa cerca de US$ 7,4 bilhões. O problema não é meramente contábil; é estrutural. Daí a pressa em acelerar a busca por novos mercados, uma tarefa perene da diplomacia comercial que ganha ares de urgência.
O esforço de Alckmin é batizar com um nome palatável uma medida que, na prática, terá o mesmo efeito de uma retaliação. A “reciprocidade”, com suas consultas e audiências públicas, é a versão engravatada e processual do revide. O governo tenta construir uma ponte entre a necessidade de responder à agressão comercial e o risco de incendiar de vez a relação. Ao insistir na diferença entre os termos, o Planalto não nega a reação. Apenas escolhe a liturgia que usará para celebrá-la.
Luciano Aragão Brasília, para a XaplinLuciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Alckmin diz que reciprocidade não é retaliação
Fonte: Agência Brasil