O espelho de 30% de Brasília
Análise · Luciano Aragão O eleitor do Distrito Federal se olhou no espelho da primeira pesquisa Datafolha (DF-07561/2026) e viu, com pequena…
Análise · Luciano Aragão
O eleitor do Distrito Federal se olhou no espelho da primeira pesquisa Datafolha (DF-07561/2026) e viu, com pequena variação, dois rostos. Um é o da governadora Celina Leão (PP), com 30% das intenções de voto. O outro, o de José Roberto Arruda (PSD), com 28%. A margem de erro de três pontos percentuais os torna indistinguíveis neste retrato. O detalhe relevante não está na fotografia do momento, mas no que ela reflete do passado e projeta para o futuro: os dois nomes que lideram a corrida pela cadeira no Palácio do Buriti também lideram em rejeição. Quase um terço do eleitorado, 32%, afirma que não votaria em Celina. Outros 30% dizem o mesmo sobre Arruda.
A matemática da rejeição mútua costuma produzir campanhas de demolição. Cada ponto a ser conquistado fora da bolha inicial exige que o adversário seja apresentado como uma opção pior. A tarefa é mais simples para a oposição. Arruda, que governou a capital entre 2007 e 2010, tem um teto conhecido. Para Celina, o desafio é defender uma gestão enquanto tenta desconstruir um nome que Brasília conhece há décadas, para o bem e para o mal. O fato de que 19% do eleitorado — somando brancos, nulos e indecisos — ainda não escolheu um lado indica que há um mercado aberto para a persuasão. E para o medo.
A vantagem da governadora está na memória curta do voto. Na pesquisa espontânea, quando os nomes não são apresentados, ela marca 21% contra 12% de Arruda. É o poder da máquina, da presença constante no noticiário. O nome que está no cargo é o primeiro que vem à cabeça. Arruda, por sua vez, depende de que o eleitor faça um esforço ativo de memória para lembrá-lo como alternativa.
O terceiro homem
Enquanto os dois gigantes se medem, Leandro Grass (PT) observa de longe, com 11%. Sua rejeição, de 19%, é significativamente menor que a dos líderes. Ele se beneficia da polarização alheia. A estrutura de uma disputa empatada entre dois candidatos com tetos de vidro é o cenário ideal para um terceiro nome que consiga se apresentar como uma alternativa viável, não apenas ideológica. Esta leitura, claro, depende da capacidade de Grass de transformar sua baixa rejeição em intenção de voto, uma alquimia que raramente acontece sem muito dinheiro e tempo de TV.
A pesquisa é um retrato do primeiro dia de campanha. As estruturas ainda estão se montando, e a crise do Banco Regional de Brasília, mencionada de passagem, ainda não entrou de fato na arena eleitoral. Quando entrar, pode alterar a percepção sobre a gestão que está e sobre a que já esteve.
Brasília parece presa entre o governo que tem e o governo que já teve. Ambos carregam ativos e passivos que praticamente se anulam. Quem vai convencer o eleitor de que o outro é um risco maior?
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Datafolha aponta empate entre Celina Leão e Arruda no DF
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil