O domingo dos começos e dos regressos
Análise · Beatriz Fonseca A campanha começou no domingo, 16 de agosto, com uma geografia precisa.
Análise · Beatriz Fonseca
A campanha começou no domingo, 16 de agosto, com uma geografia precisa. Dos seis principais candidatos à Presidência, cinco escolheram a região Sudeste para seus primeiros atos públicos. Apenas Ronaldo Caiado (PSD) iniciou sua agenda em Goiás. Os demais se dividiram entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estados que concentram a maior parte do eleitorado nacional. O primeiro dia oficial para pedir votos, portanto, não foi de dispersão, mas de concentração.
Essa concentração não foi apenas geográfica, mas também simbólica. Os locais escolhidos não foram aleatórios; foram narrativas. Lula (PT) foi a São Bernardo do Campo, ao gramado onde, no final dos anos 1970, liderou a primeira grande greve do ABC Paulista. O material de divulgação do evento descreve o ato como um “reencontro histórico de um Brasil que se orgulha da própria biografia”. Romeu Zema (Novo) começou por Montes Claros, no norte de Minas, com uma missa na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São José, associando o início de sua campanha a uma obra de infraestrutura de seu governo, a rodovia "Contorno de Montes Claros".
Um calendário, duas arenas
A campanha que se iniciou em 16 de agosto tem, na prática, dois calendários. Um é o da rua, dos comícios e das carreatas, que começou no domingo. O outro, o da propaganda paga na internet, que também teve início na mesma data. O terceiro palco, o da televisão e do rádio, só terá sua estreia em 28 de agosto. Este descompasso temporal sugere uma estratégia inicial que privilegia o contato direto e a mobilização digital antes do alcance massivo dos meios tradicionais. É uma aposta na construção de engajamento antes da disputa pela atenção de um público mais amplo.
Minha interpretação é que os atos de domingo serviram menos para conquistar novos eleitores e mais para solidificar bases e reafirmar identidades. Ao voltar a São Bernardo, Lula não fala apenas aos eleitores de 2026; ele fala à sua própria história, buscando nela a legitimidade para o futuro que propõe. Zema, ao iniciar com uma missa e em seguida vistoriar uma obra, une valores tradicionais à imagem de gestor. Cada candidato, no seu primeiro dia, escolheu o palco que melhor conta a história que deseja ver repetida até outubro.
A campanha eleitoral começa, assim, com os candidatos revisitando os lugares onde começaram. Resta saber se o eleitorado também está disposto a começar de novo com eles.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Campanha eleitoral começa com atos de rua e propaganda na internet
Fontes: g1 · CNN Brasil