O custo invisível de consumir como se o planeta fosse infinito
Análise · Prof. Otávio Estrela Há uma aritmética desconfortável escondida no estilo de vida dos mais ricos.
Análise · Prof. Otávio Estrela
Há uma aritmética desconfortável escondida no estilo de vida dos mais ricos. Um estudo recente tenta colocar número nesse desconforto: os 10% da população mundial que mais consomem geram danos ambientais que chegam a US$ 5,7 trilhões por ano ao planeta. É uma cifra que pede pausa. Não para o espanto fácil, mas para o que ela revela sobre a estrutura do problema climático — e sobre quem, de fato, o alimenta.
A astronomia me ensinou a desconfiar de números grandes que perdem escala. Então vale tentar: US$ 5,7 trilhões é mais do que o PIB de qualquer país do mundo, exceto Estados Unidos e China. É o peso econômico de uma destruição que não aparece em nenhum balanço trimestral, em nenhuma declaração de imposto de renda. Dano ambiental é, por definição, o custo que alguém não paga — e que todos os outros herdam.
O que o estudo faz, em essência, é tentar tornar visível essa herança forçada. Monetizar externalidades ambientais é um exercício metodológico cheio de incerteza — os próprios pesquisadores reconheceriam que qualquer modelagem desse tipo carrega suposições discutíveis sobre como valorar um ecossistema degradado, uma tonelada de carbono emitida, uma espécie pressionada. A imprecisão, aqui, não invalida o argumento. Ela o enquadra: mesmo que o número real seja metade disso, ou o dobro, a direção da evidência não muda.
A direção é esta: a crise climática tem uma geografia de responsabilidade muito mais concentrada do que o debate público costuma admitir. Fala-se em "humanidade" como agente coletivo do aquecimento — e há verdade nisso, em escala geológica. Mas quando se olha para o consumo corrente, para os voos intercontinentais frequentes, para as dietas de alta pegada de carbono, para os metros quadrados climatizados, o sujeito da frase se afunila. Dez por cento é uma fração pequena de oito bilhões de pessoas. É, ainda assim, cerca de oitocentos milhões de indivíduos — não uma elite abstrata, mas uma classe consumidora real, distribuída desigualmente pelo planeta, com densidade muito maior no Norte global.
Isso importa porque muda a natureza da solução. Se o problema fosse uniformemente distribuído, a resposta seria uma mudança difusa de comportamento — um pouco de cada um. Mas se a concentração de dano acompanha a concentração de consumo, então eficiência tecnológica e voluntarismo individual são insuficientes sem que se enfrente a questão da escala e da distribuição.
Não é uma conclusão confortável, especialmente em países onde os 10% mais ricos são, com frequência, exatamente as pessoas que tomam decisões de política pública, lideram corporações ou escrevem análises em jornais. Há um conflito de interesse estrutural embutido em qualquer debate sobre limites de consumo. Reconhecê-lo não resolve o problema, mas é o passo anterior a qualquer honestidade intelectual sobre ele.
A ciência climática acumula décadas mostrando o que está acontecendo e por quê. O que estudos como este acrescentam é uma conta mais precisa de quem deve quanto. Planetas, ao contrário do que o consumo excessivo pressupõe, não têm crédito ilimitado.
Otávio Estrela
Prof. Otávio Estrela — Ciência — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Consumo dos 10% mais ricos causa prejuízos de até US$ 5,7 trilhões
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL