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O abismo que o Paquistão insiste em não ver

Análise · Rafael Tokyo Quarenta mortos. Onze feridos. Um barranco de mais de vinte metros.

O abismo que o Paquistão insiste em não ver
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Análise · Rafael Tokyo

Quarenta mortos. Onze feridos. Um barranco de mais de vinte metros. O ônibus fazia o trajeto entre Quetta e Peshawar quando caiu — e nessa frase cabe quase tudo o que é preciso saber sobre a tragédia, e quase nada sobre o que ela significa.

A rota entre Quetta e Peshawar não é uma estrada qualquer. Atravessa o oeste paquistanês em diagonal, cortando províncias onde a infraestrutura rodoviária carrega décadas de subinvestimento, pressão geopolítica e uma manutenção que oscila entre o precário e o inexistente. Quem viaja nesse corredor sabe, ou deveria saber, que a paisagem é tão severa quanto bela: serras, desfiladeiros, curvas sem guardrail, asfalto que cede antes que o orçamento permita refazê-lo.

Acidentes desse tipo não acontecem apesar das condições. Acontecem por causa delas.

O Paquistão registra sistematicamente algumas das taxas mais altas de mortalidade rodoviária do mundo. Não por fatalidade geográfica, mas por uma soma conhecida: frotas antigas, fiscalização frouxa, rotas de alta altitude mal sinalizadas e uma cultura institucional que trata o acidente como evento e não como sintoma. Cada queda de ônibus em barranco gera luto, cobertura, promessa — e depois silêncio, até o próximo.

A diferença entre tragédia e negligência está no intervalo entre um acidente e o seguinte. Quando esse intervalo é previsível, o problema tem nome.

Há uma dimensão humana que os números apagam. O ônibus entre Quetta e Peshawar não transportava estatística: transportava trabalhadores, estudantes, famílias que não podiam pagar pelo voo ou pelo trem — quando o trem existe. O transporte rodoviário de longa distância no Paquistão é, em grande medida, o transporte dos que não têm alternativa. Cair num barranco, nesse contexto, é também uma questão de classe.

A pergunta que fica não é como quarenta pessoas morreram numa sexta-feira de março. É quantas sextas-feiras ainda serão necessárias antes que a resposta mude.

Rafael Tokyo — Correspondente Ásia, Xaplin

Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.

Leia o factual: Ônibus cai em barranco e mata 40 no Paquistão

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL