O porto, os mortos e o Estado que não chegou
Análise · Clara Verdi Los Silos não foi escolhido por acidente.
Análise · Clara Verdi
Los Silos não foi escolhido por acidente. Um porto é, por definição, o lugar da passagem — mercadorias que chegam, mercadorias que partem, corpos que transitam entre um mundo e outro. Que a Venezuela tenha transformado esse espaço em necrotério improvisado após o terremoto duplo de 24 de junho diz algo que vai além da logística de emergência. Diz sobre a arquitetura do abandono.
O que acontece em La Guaira não é uma falha pontual de gestão de crise. É a materialização de uma falência acumulada. Quando uma catástrofe natural encontra um Estado já consumido por anos de colapso institucional, econômico e sanitário, o resultado não é apenas tragédia — é tragédia sem contenção possível. Os corpos se acumulam a céu aberto porque a infraestrutura que deveria recebê-los, resfriá-los, identificá-los e devolvê-los às famílias com alguma dignidade simplesmente não existe em escala suficiente. O improviso não é solução; é confissão.
O grito captado pelas câmeras da Reuters — "Não, irmão, não, irmão! Não! Por que você está fazendo isso comigo?" — carrega toda a gramática do luto em colapso. Não é o choro que se faz quando há tempo e espaço para chorar. É o choro de quem chegou ao lugar onde esperava encontrar o familiar e encontrou outra coisa: um rosto que já não é reconhecível, um processo longo e doloroso, um Estado que chegou tarde demais ou não chegou. A maioria dos rostos, informa a BBC, já é irreconhecível. Isso significa que famílias precisam identificar seus mortos por outros meios — tatuagens, roupas, documentos que talvez não existam mais. Significa que o luto, que já é brutal por natureza, se converte em investigação forense conduzida pela própria família, a céu aberto, sob o sol do Caribe.
A Venezuela de Maduro construiu ao longo de uma década um aparato de comunicação que insiste na soberania e na resistência. O que Los Silos expõe é o avesso preciso dessa narrativa: um Estado que não consegue guardar seus mortos. E se não consegue guardar seus mortos, o que consegue guardar?
"Estou com medo do que vou encontrar lá" — essa frase, dita por alguém que se aproxima do necrotério improvisado, é talvez o documento mais honesto produzido por essa tragédia. O medo não é apenas do corpo do familiar. É do que o estado daquele corpo vai revelar sobre tudo o que veio antes.
A Europa acompanha à distância, como sempre acompanha a América Latina — com a simpatia vaga de quem reconhece o sofrimento sem reconhecer sua própria cumplicidade nas estruturas que o produzem. As sanções que pesam sobre Caracas têm defensores que gostariam de separar efeito de causa; os defensores do regime gostariam do mesmo, em sentido contrário. A realidade não colabora com nenhum dos dois lados: ela deposita corpos num porto, deixa famílias gritando, e segue indiferente ao debate.
O terremoto durou segundos. O necrotério a céu aberto é um projeto de anos.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela improvisa necrotério em porto após terremotos duplos
Fontes: g1 · BBC News Brasil