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O Culto Secreto dos Influenciadores Fake que Vendem Cura

Um grupo de WhatsApp promete cura para depressão e ganhos financeiros com autoajuda evangélica, piramidismo e espiritualismo tiktoker, atraindo centenas de pessoas.

O Culto Secreto dos Influenciadores Fake que Vendem Cura

SURURU_

A Religião 2.0 Que o Vaticano Não Consegue Competir

Existe um lugar no Brasil onde a depressão é tratada com áudio de 47 segundos, emojis de anjo e a promessa de que você pode ganhar R$ 5 mil mensais trabalhando 3 horas por dia. Não é um consultório. Não é fake — bem, é totalmente fake, mas também não é. É um grupo de WhatsApp chamado "FILHOS DA ABUNDÂNCIA DIVINA 🙏✨💰" onde 847 pessoas pagaram entre R$ 197 e R$ 1.200 para aprender o segredo que os bancos não querem que você saiba.

Conheci Vanessa ontem. Ou melhor, conheci a conta de alguém que se chama Vanessa — foto de mulher loura, olhar penetrante, a mão sobre o peito esquerdo em pose de revelação espiritual. Vanessa ganhou R$ 23 mil em 40 dias "apenas compartilhando a verdade". Agora ensina outras pessoas a fazer o mesmo por módico preço de R$ 497. Parcelado em três vezes "sem juros" (a taxa de processamento discretamente amoeba).

O que fascina nessa operação não é a desfaçatez. É a genialidade combinatória. Eles pegaram o vácuo existencial do brasileiro médio — aquele cara que dorme às 23h pensando "porra, faltam 8 horas pra acordar cedo" — e encheram com autoajuda evangélica + piramidismo + spiritualismo tiktoker + complô das big pharmas. Criaram uma religião que não precisa de templo, só de WiFi.

O Profeta Que Perdeu a Guarda do Filho Mas Ganhou 340 Mil Seguidores

Entrei como infiltrado. Precisei usar foto falsa (a ironia já dói), colocar nome de mulher (porque mulheres recebem mais mensagens de "mentorias motivacionais"), e fingir que estava com crise de ansiedade e "aberta para mudanças paradigmáticas".

Levou 4 horas até o primeiro mentor me chamar em PV. Se chamava Ricardo, tinha 31 anos segundo o perfil, 52 segundo a voz do áudio, e oferecia "sessão de alinhamento energético" por R$ 150. Enviou links para cursos que não existem, screenshots de depósitos que não ocorreram (Photoshop da era dos memes), e uma narrativa tão bem construída que — juro — por 23 minutos acreditei.

"A indústria farmacêutica não quer que você saiba disso, mas o açúcar é uma arma psicológica. Quando parei de comer açúcar, meu terceiro olho abriu. Fiz R$ 12 mil em uma semana."

Disso, apenas a primeira frase é logicamente coerente.

A Matemática Que Não Fecha, Mas Ninguém Pergunta

Se 847 pessoas pagaram R$ 500 em média, são R$ 423.500. Se cada uma trouxer 4 pessoas novas, e essas trazerem 4 cada uma... bem, em 10 meses a pirâmide precisaria de mais gente que habitantes tem no Brasil. Mas ninguém pensa em exponenciais quando está desesperado.

O que me perturbou mesmo não foi o crime (bancar as autoridades competentes é sport nacional). Foi a solidão embutida no mecanismo. Essas pessoas não querem seu dinheiro. Querem sua esperança. Vendem esperança porque a esperança virou escassa, e escassez tem preço.

O Desfecho Que Você Já Sabe

Denunciei os perfis. O WhatsApp "investigará". A polícia está "atenta". Vanessa continuará postando stories de viagem e sua depressão continuará se curando com transferências via Pix.

O Brasil não precisa de revolução. Precisa de serviço de atendimento ao cliente que realmente funcione. E de gente menos cansada — que aí sim ninguém compraria cura de 47 segundos.

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