Redes sociais esvaziam palco do corpo
O milhão de seguidores não importa. O número que realmente importa nas redes sociais é 2,3, revelando a futilidade da obsessão numérica.
Análise · Rafael Tokyo
O número que importa não é o milhão de seguidores. É 2,3. O nível de potássio no sangue de Chen Ziyi, o índice que desligou seu coração aos 24 anos. Um dígito clínico que resume a lógica de sua profissão: esvaziar o corpo para que o espetáculo do excesso pudesse continuar. Ganfan Yingying, seu nome de tela, era uma praticante de mukbang (transmissão de comida), um fenômeno digital onde o ato de comer se torna performance.
Na China, onde a competição por atenção online é feroz como uma linha de montagem, o corpo do influenciador é a própria fábrica. Chen Ziyi descreveu uma jornada de trabalho que incluía a ingestão de sessenta, talvez setenta, ovos em conserva. O produto não era o ovo, mas a imagem dela comendo o ovo. O consumo era um meio, não um fim. Um meio para vender produtos, para capturar audiência, para sobreviver na economia de curtidas.
A lei chinesa de 2021 que proíbe a promoção do consumo compulsivo soa, agora, como um epitáfio irônico. A regulação existe no papel, mas a pressão do algoritmo e dos contratos comerciais opera em outra frequência. A própria Chen confessou a rotina de vômitos, o método para zerar o balanço calórico e preparar o palco — seu estômago — para a próxima transmissão. O potássio baixo, que leva a arritmias e paralisia, não vem do excesso de comida, mas do que se faz depois dela, no silêncio do banheiro, longe da câmera.
O que se vê aqui é a industrialização do apetite. A fome não é mais uma necessidade biológica, mas um roteiro. "Embora ganhar dinheiro seja importante, a saúde deve sempre vir em primeiro lugar", escreveu ela em sua última publicação. A frase soa menos como um conselho e mais como a constatação tardia de quem cruzou uma fronteira sem volta. Seu caso não é um desvio, mas um resultado lógico. Em março, o turco Efecan Kültür, também de 24 anos, morreu por razões semelhantes.
Ainda não conhecemos todos os detalhes da estrutura de trabalho de Chen, as cláusulas dos contratos que a pressionavam. Essa é uma parte opaca da história. Mas o que seu corpo revelou é claro: o palco digital exige um sacrifício físico que a legislação, sozinha, não consegue impedir.
Quando a tela se apaga, o que resta do banquete? Apenas um corpo exaurido e um número em um exame de sangue.
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
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Fontes: UOL · g1 Pop & Arte
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