Quadra paulistana reflete desafios políticos do Brasil
Anúncio oficial do prefeito nas redes sociais evidencia complexidades da política e da sociedade brasileira, com repercussões nacionais.
Análise · Marcos Tibúrcio
O anúncio é oficial, burocrático, feito em redes sociais por um prefeito. São Paulo terá uma etapa da Liga das Nações de Vôlei em 2027. Um ginásio, ainda sem nome, receberá as seleções do mundo. A nota fria, porém, esconde o que de fato se arma: um palco para o acerto de contas do voleibol brasileiro consigo mesmo.
Porque o Brasil que chegará a esta quadra paulistana é um país cindido em dois. Há a seleção feminina, que conheceu a prata em 2026. Prata que, no olhar da arquibancada, tem sempre o gosto amargo da véspera do ouro. É a equipe do quase, da luta que morre na praia, da decisão perdida para a Turquia em solo chinês. E há a seleção masculina, que viveu o seu próprio Maracanazo: uma eliminação inédita, ainda na primeira fase, um vexame silencioso do outro lado do mundo.
São Paulo, portanto, não sediará apenas um torneio. Sediará um espelho. De um lado, a chance de redenção para um time masculino que precisa se reencontrar. Do outro, a obrigação de confirmação para uma geração feminina que não pode mais se contentar com a prata.
Uma cidade em busca de seu lugar
A escolha não é fortuita. A capital paulista, que já receberá o Mundial de Clubes feminino em dezembro de 2026, ensaia um movimento para se firmar como praça do esporte de elite, para além do futebol. É uma aposta na memória de uma cidade que já ferveu com o vôlei em outros tempos, mas que precisa provar que ainda tem pulmão para isso. A decisão de trazer os dois naipes, masculino e feminino, pela primeira vez, é um teste para o apetite do público.
O quadro, no entanto, permanece incompleto. A Federação Internacional ainda estuda como acomodar as 19 seleções que disputarão o torneio, um número inflado pelo retorno da Rússia, banida por quase cinco anos. A política internacional, com seu passo de paquiderme, volta a pisar no tablado esportivo. Este detalhe pode alterar toda a dinâmica da competição, tornando o caminho até o pódio mais tortuoso.
O prefeito falou em "grandes seleções e atletas do mundo inteiro". Linguagem de protocolo. Quem viveu o esporte sabe que a arquibancada não irá ao ginásio para ver o mundo. Irá para ver o Brasil. Para cobrar a glória que falta a um e a honra que se perdeu para o outro.
Daqui até junho de 2027, resta saber qual Brasil encontrará a quadra paulistana: o que se acostumou com a prata ou o que se esqueceu de como se vence?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: São Paulo sedia Liga das Nações de Vôlei em junho de 2027
Fonte: ge