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Seleção de Portugal monta circo antes da Copa do Mundo

A tradição de polêmicas internas marca toda preparação portuguesa para o torneio.

Seleção de Portugal monta circo antes da Copa do Mundo

Análise · Marcos Tibúrcio

Existe uma tradição, quase um ritual, que antecede toda grande Copa do Mundo: a seleção que chega ao torneio com a narrativa do grupo unido, do ambiente leve, da concentração que parece mais uma colônia de férias do que uma preparação para a guerra. Portugal, em 2026, escolheu o Spikeball como símbolo dessa harmonia.

Para quem não conhece: Spikeball é um jogo que combina elementos do vôlei e do frescobol sobre uma mini rede circular no chão. Dois times de dois jogadores se alternam para rebater uma bola na rede, num duelo de reflexos e acrobacias que cabe numa mala. Cabe, literalmente — o equipamento é portátil. É o tipo de esporte que nasce nas praias americanas e morre nas academias de luxo. Ou que ressurge, décadas depois, numa concentração de Copa do Mundo em solo norte-americano.

O detalhe que transforma o anedótico em simbólico é a presença de Cristiano Ronaldo. Aos 41 anos — e ninguém precisa fingir que essa idade passou em branco num atleta de alta performance —, Ronaldo não é apenas mais um jogador da concentração que aderiu à moda. Ele é a concentração. Onde Ronaldo joga, os outros assistem ou imitam. Onde Ronaldo ri, a fotografia existe. O Spikeball, portanto, não é um esporte que Portugal adotou: é um palco que Ronaldo ocupou.

Isso não é crítica. É leitura.

A Copa de 2026 será, com toda a probabilidade, a última de Cristiano Ronaldo em Copas do Mundo. A de 2022, no Qatar, já carregava esse peso — e Portugal foi eliminado nas quartas de final pela Marrocos, numa noite em que Ronaldo entrou como reserva e saiu entre lágrimas que o mundo inteiro tentou decifrar. Quatro anos depois, a seleção chegou renovada na convocação, mas com o mesmo centro de gravidade emocional.

O Spikeball, nesse contexto, não é entretenimento inocente. É gestão de imagem, alívio de pressão e construção de narrativa ao mesmo tempo. A imagem do grupo descontraído serve para a torcida, serve para a imprensa e, sobretudo, serve para os próprios jogadores. O futebol moderno entendeu, faz tempo, que concentração é também laboratório psicológico. O que se faz nos dias sem jogo molda o que se faz nos dias com jogo.

A questão, sempre, é o que acontece quando o circo portátil é guardado e o campo de verdade começa.

Portugal tem elenco para ir longe nesta Copa. Tem qualidade técnica na meia-cancha, tem velocidade nos flancos e tem, em Ronaldo, um jogador cuja mera presença reorganiza a pressão adversária. O que não tem, e nunca teve com facilidade, é a frieza cirúrgica das seleções que erguem troféus. A Alemanha de 1974 não jogava Spikeball. Mas também não tinha Cristiano Ronaldo.

O circo é bonito. Que a guerra venha à altura dele.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Spikeball vira entretenimento na concentração de Portugal na Copa

Fonte: ge