A balística da hesitação
Análise · Clara Verdi Os corpos em Kiev ainda não tinham sido contados e o som dos vidros caindo como chuva — na descrição de uma moradora à AFP —…
Análise · Clara Verdi
Os corpos em Kiev ainda não tinham sido contados e o som dos vidros caindo como chuva — na descrição de uma moradora à AFP — ainda ecoava nos corredores dos prédios quando a conversa do outro lado do Atlântico já soava como um eco de outra era. Nove mortos, vinte e oito feridos. Os números são a aritmética fria de um sábado que começou ao som de explosões aterrorizantes, a contabilidade de um ataque com mísseis balísticos que a Rússia, com a sua precisão semântica habitual, diz ter alvejado o “complexo militar-industrial”. Para Katerina Kravchenko, 75 anos, o alvo foi o seu corredor, o tremor do seu prédio, o tempo que mal teve para se proteger.
O drama ucraniano se desenrola em dois atos simultâneos. Um é o da terra, dos escombros e das sirenes. O outro é o da política, dos gabinetes e das declarações à imprensa. Em Kiev, a prioridade é absoluta: defesa contra projéteis difíceis de neutralizar, talvez fabricados na Coreia do Norte. O chanceler Andrii Sibiga fala em urgência, em rapidez, em decisões cruciais. A gramática é a da sobrevivência. Em Washington, a gramática é outra. A da cautela, a do poder, a do talvez.
Donald Trump, em seu gabinete, fala de armas “incríveis” — Patriot, Tomahawk — com a admiração de um colecionador. “Devemos ter muito cuidado antes de permitir que alguém as produza”, adverte. A hesitação presidencial americana, que dias antes parecia inclinada a ceder à produção local dos sistemas de defesa, agora se retrai. “Não demos nosso aval.” Entre o pedido desesperado de Zelenski e a ponderação de Trump está a distância que se mede em vidas perdidas. Uma distância balística.
Não há nada de novo na assimetria. Uma nação se defende com o que tem, a outra ataca com o que pode, e uma terceira, distante, calcula o custo e o benefício de sua benevolência armada. O que se revela, no entanto, é a brutal dissociação entre a realidade do alarme que soa em um apartamento de Kiev e a deliberação que acontece na Casa Branca. A urgência de um é a variável no cálculo do outro. Enquanto a Ucrânia precisa de escudos, os Estados Unidos pesam a quem entregar a chave da fábrica de escudos. E no tempo que essa deliberação consome, o céu sobre a Ucrânia permanece tragicamente aberto.
Clara Verdi
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · UOL