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Obra remove calçada e deixa processo judicial aberto

Uma calçada desapareceu durante obra. Padaria, bar e moradores da região enfrentam agora processo judicial relacionado às mudanças.

Obra remove calçada e deixa processo judicial aberto

Crônica · Heitor Graça

Tinha uma calçada ali. Tinha uma padaria na esquina, um bar com aquela televisão sempre ligada no jogo, tinha criança brincando de bicicleta no final da tarde. Tinha gente, que é o que as cidades têm de mais fundamental e de mais frágil.

O chão de cinco bairros de Maceió começou a ceder, e com ele foram embora mais de quarenta mil pessoas. Não numa catástrofe de segundos, daquelas que ocupam capas e depois somem da memória coletiva. Foi um afundamento lento, sorrateiro, quase burocrático na sua crueldade — o tipo de desastre que vai empurrando a vida pra fora de mansinho, até que um dia você olha pra trás e onde havia um bairro há só ausência.

Oito anos se passaram. Oito anos é tempo suficiente para uma criança que morava naquelas ruas aprender a ler, terminar o ensino fundamental e já não se lembrar direito da cor da parede do quarto que perdeu.

A Justiça Federal em Alagoas decidiu agora tornar a Braskem e alguns de seus ex-dirigentes réus na ação penal que busca responsabilizar quem operou as minas de sal-gema sob aqueles bairros. A notícia chegou com o peso de coisa que deveria ter chegado antes — mas que é melhor tarde do que nunca, supõe-se, embora "nunca" e "tarde" sejam categorias que as quarenta mil pessoas deslocadas conhecem de um jeito que os juízes, com todo o respeito, não conhecem.

Réus. A palavra tem uma solenidade fria que o direito precisa, mas que a rua não entende muito bem. O que a rua de Maceió entendeu, nos anos que se seguiram, foi outra coisa: a rachadura na parede, a ordem pra sair, a sacola feita às pressas, a chave entregue pra não se sabe quem.

Tornar alguém réu não devolve o bairro. Mas é o começo de uma conversa que a cidade merecia ter tido antes de o chão desaparecer sob seus pés.

Enquanto o processo segue nos seus ritos e nas suas datas, lá em Maceió tem alguém que ainda guarda na memória o cheiro da padaria da esquina — o pão de queijo das sete da manhã, a senhora que sempre pedia o troco em moedas. Detalhes que nenhuma sentença recupera e que nenhuma omissão apaga. É por eles que o processo importa, no fim das contas. Não pela solenidade da palavra réu, mas pelo que ela representa de tardio reconhecimento de que aquele chão tinha gente em cima — e que gente, ao contrário do solo, não pode simplesmente afundar sem que alguém responda por isso.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Braskem e ex-dirigentes viram réus por desastre ambiental em Maceió

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL