O chão que sempre treme em Kumamoto
Análise · Rafael Tokyo Às 16h29 de uma terça-feira em Kyushu, a terra lembrou a todos da sua impermanência.
Análise · Rafael Tokyo
Às 16h29 de uma terça-feira em Kyushu, a terra lembrou a todos da sua impermanência. O tremor de magnitude 7,1 não foi apenas um número na escala Richter; foi o som de telhas se soltando, o silêncio súbito dos trens-bala, o alerta de tsunami que esvazia a costa em minutos. Em Kumamoto, o chão se moveu com uma violência que reviveu memórias de uma década atrás, quando um sismo devastador deixou sua marca em vidas e na paisagem.
A resposta do Japão a um desastre natural é um mecanismo ensaiado à exaustão. Os alertas de emergência dispararam em sete prefeituras. A operadora JR Kyushu paralisou os Shinkansen (trens de alta velocidade), cujos sensores são mais rápidos que a própria onda de choque. As usinas nucleares de Sendai e Genkai, fantasmas de uma ansiedade nacional, foram imediatamente verificadas — nenhuma anormalidade, declarou o órgão regulador. O secretário-chefe do Gabinete apareceu diante das câmeras. Cada passo do protocolo é executado com uma precisão que beira o ritual, um esforço coletivo para impor ordem ao caos geológico.
Mas a ordem tem seus limites. A nuvem de poeira que se ergueu perto do Castelo de Kumamoto, um ponto turístico reconstruído com esmero após tremores passados, é mais do que um dano material. É um símbolo da fragilidade do que se constrói sobre placas tectônicas ativas. O Japão ergue arranha-céus que balançam e não caem, mas a poeira de um castelo antigo lembra que nem tudo pode ser projetado para resistir para sempre.
Uma memória sob a pele
Para os moradores de Kumamoto, este não é um evento isolado. É um eco do terremoto de 2016, que matou 275 pessoas. A memória de um desastre não está nos relatórios oficiais, mas na hesitação antes de entrar num prédio, no kit de emergência sempre pronto perto da porta. A cada cinco minutos, um tremor é registrado em algum lugar do arquipélago. A maioria não é sentida, mas sua frequência constante molda uma consciência coletiva: a de que a normalidade é um intervalo entre um tremor e o próximo.
O alerta de tsunami para ondas de um metro no Mar de Ariake e no Mar de Yatsushiro pode parecer menor para o mundo. Para quem vive ali, é um comando absoluto. Sobe-se para o terreno alto, espera-se. Não se questiona. É a lição aprendida com ondas muito maiores, em outros tempos, em outras costas. A terra tremeu, o mar ameaçou recuar. E o Japão, mais uma vez, executou sua coreografia de sobrevivência, esperando o chão se acalmar.
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
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Fontes: g1 · CNN Brasil · UOL