Terremoto no Afeganistão deixa destruição em Cabul
Um terremoto de magnitude 6 atingiu o Afeganistão no sábado, com tremores sentidos em Cabul e no norte do Paquistão.
Análise · Rafael Tokyo
O tremor chegou num sábado. Magnitude 6, sentido em Cabul e no norte do Paquistão. Moradores sentiram o chão se mover sob os pés — esse detalhe banal, quase universal, carrega aqui um peso específico: no Afeganistão, o chão nunca foi apenas chão.
Um sismo de magnitude 6 é, pela escala sismológica, um evento severo. Capaz de danificar estruturas, derrubar paredes, matar. Em qualquer país, seria emergência. No Afeganistão, é emergência dentro da emergência — uma camada a mais sobre um país que já opera no limite do colapso estrutural, humanitário e político.
É isso que distingue este terremoto de um terremoto genérico: não é a geologia, é o contexto em que a geologia age. A capacidade de resposta a desastres depende de infraestrutura hospitalar funcionando, de rotas de acesso desobstruídas, de comunicação, de autoridade estatal com legitimidade e recursos para mobilizar socorro. O Afeganistão tem deficiências graves em cada um desses itens. O Paquistão, embora em situação comparativamente melhor, atravessa sua própria crise fiscal e política.
A fronteira entre os dois países é, ela mesma, uma linha de tensão permanente. Quando a terra treme numa região que abraça Cabul e o norte paquistanês, o socorro precisa atravessar não só estradas precárias, mas décadas de desconfiança mútua e dinâmicas de poder que não se suspendem por decreto natural.
O terremoto não escolhe o momento. Mas o momento escolhe o que o terremoto vai custar.
O material disponível ainda não traz número de vítimas nem avaliação de danos. Esse silêncio inicial é, em si, informação: significa que as primeiras horas — as mais críticas para sobreviventes presos sob escombros — transcorrem enquanto o mundo ainda está contando a notícia, não agindo sobre ela. Em países com sistemas de alerta e resposta rápida, a janela entre o tremor e a mobilização se mede em minutos. Aqui, pode se medir em dias.
O Afeganistão já viveu, nos últimos anos, terremotos que mataram centenas de pessoas em regiões onde a ajuda chegou tarde ou não chegou. A geografia — montanhas, estradas cortadas, aldeias isoladas — conspira com a política. O resultado é sempre o mesmo: os mortos ficam mais mortos por mais tempo antes de serem contados.
Num sábado, o chão tremeu em Cabul. O que vem depois depende menos da magnitude do sismo do que da magnitude da resposta. E essa, por ora, ainda é uma pergunta aberta.
Rafael Tokyo, correspondente Ásia
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Terremoto de magnitude 6 atinge Afeganistão e Paquistão
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
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