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O chão que nunca descansa sob os pés do Japão

Análise · Clara Verdi O Japão é um país que aprendeu a conviver com a própria impermanência geológica, um lugar onde a terra treme, em média, a cada…

O chão que nunca descansa sob os pés do Japão
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O Japão é um país que aprendeu a conviver com a própria impermanência geológica, um lugar onde a terra treme, em média, a cada cinco minutos. Essa intimidade com o abismo se manifesta em uma coreografia precisa de protocolos e alertas, uma burocracia da catástrofe que se ativou mais uma vez nesta terça-feira. Quando o sismo de magnitude 7,1 sacudiu Kumamoto, no sul do país, o que se viu não foi o pânico desordenado, mas a ativação de um sistema construído sobre a memória de desastres anteriores. Sirenes, alertas para sete prefeituras da ilha de Kyushu, a suspensão imediata dos trens-bala Shinkansen — cada passo é um reflexo condicionado pela experiência.

A história recente pesa. Há exatamente uma década, outro terremoto devastador em Kumamoto deixou uma cicatriz de 275 mortos. A memória daquela violência informa o presente, transforma um alerta de tsunami para ondas de um metro — quase irrisório em outras costas — em uma ordem perentória: “Deixe imediatamente as áreas costeiras”. O medo não é da onda em si, mas do que a onda representa: a possibilidade sempre presente de que a natureza decida, sem aviso, reescrever a paisagem e a vida.

O vocabulário da cobertura noticiosa é técnico, quase asséptico. Fala-se em “anormalidades” nas usinas nucleares — a palavra escolhida para afastar o fantasma de Fukushima —, na interrupção da energia e dos transportes. Mas por trás dos comunicados oficiais, há o tremor que corre nas estruturas de um castelo histórico, a nuvem de poeira que se levanta sobre um ponto turístico, o silêncio súbito de um trem suspenso nos trilhos. É a vida cotidiana interrompida pela força que a sustenta e, a qualquer momento, pode devorá-la.

Num escritório em Tóquio, repórteres observam as notícias que chegam do sul, traduzindo a fúria da terra em manchetes. A cena encapsula a condição japonesa: a de uma modernidade ultra-tecnológica, simbolizada pelo Shinkansen e pelas usinas, construída sobre um chão que nunca descansa de verdade. Cada tremor, não importa a magnitude, é um lembrete de que a normalidade é um pacto frágil, e que a ordem — por mais resiliente e preparada que seja — é apenas um interlúdio entre um abalo e o próximo.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de magnitude 7,1 atinge sul do Japão

Fontes: g1 · CNN Brasil · UOL