Herdeiro Caribé enfrenta solidão na piscina vazia
Marcos Tibúrcio Guilherme Caribé, 23, carrega o peso de um mar. Analisamos sua solidão.
Análise · Marcos Tibúrcio
Guilherme Caribé tem 23 anos e o peso de um mar nos ombros. Conversava, nesta sexta, com César Cielo, um fantasma de glórias passadas, e as palavras do rapaz soaram menos como entrevista e mais como desabafo. Ou como um grito abafado pela água. O principal nadador do país, o homem que carrega a expectativa de uma nação inteira a cada mergulho, disse que briga pelo mínimo. O mínimo. Como se um velocista pedisse apenas um par de sapatilhas sem furos.
Não há drama maior no esporte que o do talento lutando não contra o cronômetro, mas contra a indiferença. Caribé, dono de três bronzes no Pan-Pacífico, igualando feitos de Cielo e Thiago Pereira, não falou dos rivais de touca e óculos. Falou das mesmas pessoas nos mesmos cargos, da estrutura que não chega, da luta inglória por aquilo que deveria ser ponto de partida, não linha de chegada. É o enredo clássico do nosso desporto: o atleta contra si e contra o seu entorno.
Um silêncio que ensurdece
O golpe mais duro, porém, não foi nos cartolas. Foi nos seus. Na sua geração. “O pessoal está com a cabeça baixa, só aceitando tudo”, confidenciou a Cielo. É uma fotografia cruel. O herói se descobre sozinho não apenas na raia, mas no vestiário. Descreve uma seleção fragmentada, onde “é cada um em um canto”, onde ninguém fica para assistir ao companheiro. Onde a união, essa força mística que transforma equipes em legiões, se desfez em partículas de individualismo.
Ele se lembra de Budapeste, em 2022, com os mais velhos, e a memória tem a doçura da camaradagem. “Era um grupo mais unido”, disse. Hoje, a seleção parece um arquipélago de vaidades e silêncios. É possível que esta leitura seja a de um jovem impaciente, que ainda não compreendeu as dinâmicas de poder e resignação que marcam qualquer estrutura. Mas quando a crítica parte do único que entrega resultados superlativos, ela ganha a gravidade de uma profecia.
Enquanto as luzes da Copa do Mundo de futebol nos cegam com seu espetáculo de bilhões, um rapaz baiano nada em raias distantes, por vezes sozinho, quase sempre em silêncio. Ele não pede aplausos. Pede o básico. E, talvez mais importante, pede que seus pares levantem a cabeça da água e olhem para os lados.
Afinal, de que vale a glória de um homem só numa piscina cercada de conformados?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge