O chão que falta a um presidente
Análise · Clara Verdi Um presidente empossado na sexta-feira aprende, na manhã de segunda, que o chão de seu país não é uma metáfora.
Análise · Clara Verdi
Um presidente empossado na sexta-feira aprende, na manhã de segunda, que o chão de seu país não é uma metáfora. Abelardo de la Espriella, há menos de 72 horas no poder, viu a Colômbia tremer com uma força que não se via há uma década. A terra abriu-se às 7h34, sob a Cordilheira Ocidental, e com ela a primeira prova real de um governo que ainda nem esquentou a cadeira.
O número de mortos, cento e trinta e dois até a última contagem, é uma estatística fria que esconde a natureza da tragédia. Os vídeos de um prédio desabando na Plaza Bolívar de Pereira — a poeira subindo onde a vida comum acontecia minutos antes — trazem a catástrofe para a escala humana. O tremor foi profundo, 103 quilômetros abaixo da superfície, o que talvez tenha poupado o país de uma carnificina ainda maior. Mas a profundidade não amorteceu o abalo político.
De la Espriella reagiu como manda o manual: declarou o estado de calamidade pública. A expressão, gasta pelo uso, significa a suspensão da normalidade orçamentária, a concentração de poder nas mãos do executivo para responder ao caos. Não é um ato técnico. É a afirmação de um poder que se consolida na gestão da emergência, na coordenação de uma Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres que se torna, por dias, o centro nervoso do Estado. Todo o seu capital político inaugural será medido por sua capacidade de organizar socorro, de aparecer nos lugares certos, de oferecer a imagem de um controle que ninguém, de fato, possui quando a geologia se impõe.
Há uma ironia cruel na geografia do desastre. O epicentro, no pequeno município montanhoso de San José del Palmar, saiu milagrosamente ileso. A devastação se concentrou mais longe, nas cidades maiores da Região Cafeeira, como Pereira e Manizales, onde a densidade populacional e a precariedade de certas construções cobram seu preço. A terra treme para todos, mas não derruba as casas de todos da mesma maneira.
O novo presidente prometeu ir a Bogotá para liderar os esforços. Mas para um país fraturado, a verdadeira liderança não se mede nos postos de comando unificados. Mede-se na capacidade de reconstruir a confiança quando o próprio solo parece ter desistido dela. Para a Colômbia, quantas outras fendas, além da tectônica, este terremoto irá expor?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: BBC News Brasil · UOL