Tempestade ameaça Rio de Janeiro após alerta de Heitor Graça
Uma crônica de Heitor Graça descreve o clima de apreensão no Rio de Janeiro diante da iminente tempestade.
Crônica · Heitor Graça
A gata miou na janela, não para o passarinho de sempre, mas para o céu. Um miado grave, de quem fareja encrenca. O céu de Copacabana, antes de um azul distraído de fim de tarde, ganhava uma cor de chumbo, um mau humor que subia do mar para as nuvens. A luz ficou estranha, amarelada, como em fotografia antiga. E o vento, que até então era só a brisa mansa que balança a cortina, virou um sujeito apressado que bate as janelas com força.
Dizem os mapas do tempo que o aviso é laranja. Laranja perigo. Ventos de cem quilômetros por hora, granizo talvez. É uma frente fria que avança, uma briga de gigantes invisíveis sobre nossas cabeças. O porteiro, seu Afonso, recolheu os cinzeiros da entrada e olhou para cima com o ar de quem já viu essa história muitas vezes. Os cachorros na rua parecem mais apressados, puxando seus donos para casa.
O meteorologista na televisão explicou que serão episódios isolados, não uma tempestade contínua que varre tudo. Uma chuva aqui, um vento forte ali. Gosto disso. A desgraça perde um pouco a solenidade quando é anunciada como coisa pontual. Fica mais parecida com o resto da vida, um susto que passa rápido entre longos períodos de calmaria.
Um amigo de São Paulo me manda uma foto de nuvens pesadas sobre a cidade. Aqui, por enquanto, é só a promessa. Aquele silêncio que antecede o barulho, a tensão no ar. A gente se prepara para o temporal que talvez nem chegue com a força que anunciaram. Mas a gente se prepara. E essa expectativa já muda o ritmo do dia.
A gata já se escondeu debaixo do sofá. Ela não entende de aviso laranja ou de frentes frias, mas entende perfeitamente do silêncio que precede o estrondo.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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