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Crônica: madrugada, celular e solidão urbana

Uma reflexão sobre os ruídos noturnos da cidade e o isolamento que persegue quem vive em grandes centros urbanos.

Crônica: madrugada, celular e solidão urbana

Crônica · Heitor Graça

Às três da manhã, quando a cidade dorme com o barulho do ar-condicionado e o vizinho do quinto ronca do lado direito, o celular vibrou na mesinha de cabeceira. Não foi o toque mole de uma mensagem de amigo tardio, nem o ping discreto de e-mail que pode esperar. Foi aquele som de emergência — o que o aparelho reserva para ciclones e enchentes —, o som que faz o coração dar um tranco antes de os olhos abrirem.

Lá estava o alerta. Da Defesa Civil Nacional. Palavra de ordem, fonte grande, urgência de sirene. E no meio daquele aviso oficial, entre os códigos e os símbolos, uma palavra que ninguém espera encontrar num sistema de proteção civil: misantropia.

Misantropia. O ódio pela espécie humana, assinado, às três da manhã, pelo próprio Estado.

Quem acorda assim não vai logo pensar em falha técnica. Vai pensar em tsunami. Em ruptura de barragem. Vai sentar na cama, piscar três vezes, reler a palavra, piscar de novo. Depois, se tiver alguém do lado, vai virar e sussurrar: "você viu isso?" — e a pergunta vai carregar toda a perplexidade que a madrugada permite.

Foi o que aconteceu em diferentes estados do país, entre a noite de sexta e as primeiras horas de sábado. Moradores receberam mensagens falsas disparadas por uma invasão ao sistema Defesa Civil Alerta. A Defesa Civil Nacional confirmou a invasão e tirou o sistema do ar na madrugada. O que se sabe, por ora, é isso: alguém entrou onde não devia, apertou o que não devia, e a palavra saiu voando pelos celulares do Brasil dormindo.

Tem algo perturbador na imagem — não pelo perigo que representou, mas pelo que revelou quase sem querer. O sistema pensado para nos avisar quando a natureza resolve ser brutal foi sequestrado por alguém que escolheu, de todas as palavras possíveis, justamente essa. Como se a invasão não fosse técnica, mas filosófica. Como se o recado fosse outro.

Mas eu prefiro ficar com a cena menor: o morador do Rio que printou o alerta e mostrou ao mundo com aquela expressão de quem não sabe se ri ou liga pro Corpo de Bombeiros. Às três da manhã, o celular gritou uma palavra difícil, e ele ficou ali, na beira da cama, tentando soletrar o perigo.

O sistema voltará. A palavra ficará por mais tempo.

Heitor Graça

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Defesa Civil Nacional tira sistema do ar após invasão disparar

Fontes: g1 · UOL