O candidato papel higiênico
Análise · Luciano Aragão Na mesa de suvenires da campanha, oncinhas de pelúcia vestiam a frase: “prendeu, matou”.
Análise · Luciano Aragão
Na mesa de suvenires da campanha, oncinhas de pelúcia vestiam a frase: “prendeu, matou”. O candidato do partido Missão, Renan Santos, oferecia seu programa de governo em camisetas pretas, à venda no lançamento de sua candidatura presidencial em São Paulo. A peça de algodão, no entanto, é o item menos descartável de sua operação política.
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) forneceu a palavra exata. Questionado sobre o concorrente que morde a direita de seu irmão Flávio, o filho “03” de Jair Bolsonaro disse que Renan Santos cumpre o papel de “papel higiênico de gente da Faria Lima”. A frase, um exercício de menosprezo, acabou por confirmar o que se conversa em voz baixa nas mesas de operações paulistanas: uma fatia do mercado financeiro decidiu irrigar o projeto de poder do antigo líder do Movimento Brasil Livre.
O produto vendido é um híbrido. Aos economistas, gestores e CEOs que o cortejam, Renan, 42 anos e ensino superior incompleto, promete o ultraliberalismo do argentino Javier Milei. Aos seus eleitores, majoritariamente jovens, homens e brancos, acena com o populismo policial de Nayib Bukele, de El Salvador. É uma combinação que desconsidera detalhes como a Constituição, que veda a pena de morte no Brasil. Um detalhe. A Faria Lima não se assusta com a violência retórica. Assusta-se com o risco de um segundo turno entre Lula e um Bolsonaro.
Com cerca de 4% nas pesquisas, Renan Santos não ameaça, ainda, a polarização. Situa-se no mesmo patamar de Romeu Zema e próximo de Ronaldo Caiado. Mas, ao contrário dos governadores, ele não tem um estado para administrar. Sua única função, até 2026, é ser candidato. Um candidato útil.
Para um setor que vive de diversificação de portfólio, aplicar em um ativo que drena votos de Flávio Bolsonaro parece uma operação lógica. Um cálculo de risco. Se o candidato der certo, ótimo. Se falhar, ao menos serviu para enfraquecer um nome considerado instável e, quem sabe, abrir espaço para um terceiro. O papel é usado e descartado. A dúvida é apenas quem limpa a sujeira depois.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Parte do mercado financeiro apoia Renan Santos, candidato do Missão
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil