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O câncer que dobrará não é só biológico

Análise · Dra. Camila Torres Há uma frieza conveniente nos números grandes. Vinte vírgula seis milhões de casos novos por ano.

O câncer que dobrará não é só biológico
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Há uma frieza conveniente nos números grandes. Vinte vírgula seis milhões de casos novos por ano. Quase dez milhões de mortes. Vinte e seis mil mortos por dia — mais do que muitas guerras ativas. O Relatório Global sobre a Situação do Câncer 2026, produzido pela OMS em parceria com a Iarc, projeta que esse volume chegará a 35 milhões de casos anuais até 2050. A frieza nos protege de sentir o peso. Ela também nos permite ignorar o argumento central do documento, que não é sobre biologia: é sobre escolha política.

O crescimento projetado tem causas identificáveis. Envelhecimento populacional, urbanização acelerada, expansão do sedentarismo, obesidade, poluição do ar. A OMS estima que cerca de quatro em cada dez casos estão associados a fatores de risco evitáveis — tabagismo, consumo de álcool, infecções por HPV e pelos vírus das hepatites B e C. Não é fatalismo, portanto. É a anatomia de um fracasso coletivo em políticas de prevenção que já existem, já funcionaram em alguns países, e não chegaram à maioria deles.

O dado mais perturbador do relatório não é a projeção de 2050. É o presente. Em menos de um terço dos países, o tratamento oncológico está incluído nos pacotes básicos de saúde garantidos pelo Estado. Na maior parte do mundo, um diagnóstico de câncer é também um diagnóstico financeiro. Quarenta e cinco por cento dos pacientes relatam dificuldades econômicas decorrentes da doença. Mais da metade cita problemas de saúde mental. Quase a totalidade dos cuidadores descreve sobrecarga e isolamento. O câncer não adoece só o corpo de quem o tem.

A distância entre sobreviver e não sobreviver ao câncer de mama mede, hoje, a distância entre nascer num país rico e nascer num país pobre: 87% de sobrevida em cinco anos contra 42%.

Essa diferença não é mistério clínico. É acesso. É a disponibilidade dos 20 medicamentos prioritários variando entre 68% e 94% em países de alta renda, e entre 9% e 54% em países de baixa e média-baixa renda. A molécula é a mesma. A fronteira que a atravessa, não.

Elisabete Weiderpass, diretora da Iarc, observa que alguns países que implementaram políticas de prevenção viram reduções em certas taxas — e que mesmo assim o progresso tem sido lento demais. A frase importa porque desfaz dois equívocos simultâneos: o de que nada funciona, e o de que o que funciona avança no ritmo necessário. Funciona, e não avança.

O relatório recomenda reforço à proteção social, formação de profissionais de saúde e distribuição equitativa dos avanços em pesquisa e tratamento. São recomendações que a OMS repete há décadas em outros contextos — HIV, tuberculose, saúde materna — e que dependem, invariavelmente, de vontade fiscal e política que os números por si sós não geram. O que os números fazem, quando lidos com atenção, é tornar mais difícil a alegação de ignorância. Em 2050, se os 35 milhões de casos se confirmarem, a pergunta não será "por que isso aconteceu?". A resposta já está escrita neste relatório, em 2026.

Camila Torres é médica e epidemiologista, chefe de Saúde da Xaplin.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: OMS alerta que casos de câncer devem quase dobrar até 2050

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.