Dan Burn e a aritmética cruel de parar Haaland
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma lógica sedutora na solução que The Athletic apresenta para o problema mais concreto desta Copa do Mundo: se Erling…
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma lógica sedutora na solução que The Athletic apresenta para o problema mais concreto desta Copa do Mundo: se Erling Haaland tem 1,95 metro e destrói defesas com o corpo tanto quanto com o instinto, a resposta seria Dan Burn, 2,01 metro, o jogador de linha mais alto do torneio. A matemática é simples. O futebol, nunca.
Burn tem 34 anos, não é titular habitual da seleção inglesa e, no Mundial, só entrou em campo nos quinze minutos finais contra o México — tempo suficiente, é verdade, para realizar seis cortes e salvar um cabeceio em bicicleta de Raúl Jiménez que tinha endereço certo. Não é pouco. Mas quinze minutos contra o México não são noventa contra Haaland em quartas de final.
O argumento histórico que o jornal inglês levanta é genuíno: em dez jogos pelo Newcastle diante do Manchester City de Haaland, o norueguês marcou apenas um gol. É o pior retrospecto do centroavante contra qualquer clube da Premier League que ele enfrentou cinco vezes ou mais. O dado impressiona — até que se leia a ressalva: Burn foi titular em oito dessas partidas, mas em metade delas atuou na lateral-esquerda, longe de qualquer marcação direta sobre Haaland. A estatística, assim, perde metade do peso que parecia ter.
O Newcastle perdeu seis dos oito jogos em que Burn e Haaland se encontraram. Conter um atacante e vencer uma partida são coisas que, no futebol de alto nível, costumam andar juntas — mas nem sempre chegam ao mesmo tempo.
O que The Athletic acerta, porém, é no diagnóstico de contexto. Burn, segundo o jornal, rende mais quando seu time tem menos posse e absorve pressão — exatamente o cenário que a Noruega impõe. A seleção escandinava manteve 66% de posse contra o Brasil. Não é um time que vai ceder o jogo à Inglaterra. Vai construir, vai pressionar, vai colocar Haaland na área em situações que ele conhece melhor do que qualquer zagueiro conhece a si mesmo.
A questão que a imprensa inglesa coloca, portanto, não é absurda: ela é incompleta. Burn pode ser a melhor arma disponível para uma função ingrata. Mas a pergunta que fica é outra, anterior e mais honesta — qual defesa, nesta Copa, olhou para Haaland e saiu do outro lado sem cicatriz? O centroavante da Noruega não é um problema que se resolve com um marcador, por mais alto que ele seja. É um problema que se gerencia, coletivamente, e ainda assim sem garantia.
Sábado dirá se a aposta de dois metros se sustenta. Ou se Haaland, mais uma vez, fará a aritmética parecer ingênua.
Marcos Tibúrcio, Xaplin Esporte
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: The Athletic aponta Burn para conter Haaland na Copa do Mundo
Fonte: ge