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O calor que mata não avisa: Europa e o custo humano do clima

Análise · Dra. Camila Torres Dez mil e seiscentas mortes.

O calor que mata não avisa: Europa e o custo humano do clima
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Análise · Dra. Camila Torres

Dez mil e seiscentas mortes. Não como cifra abstrata de estatística climática, mas como excesso — o que não deveria ter acontecido. Na semana de 22 a 28 de junho de 2026, a Europa enterrou mais de 80 mil pessoas quando a média histórica para aquele intervalo é de 70 mil. A diferença, compilada pela rede EuroMOMO a partir de registros nacionais de 27 países, não tem explicação alternativa convincente: não havia surto de Covid-19, não havia outro fator de confusão relevante. Havia calor.

O número tem uma anatomia precisa. Mais de 90% dos óbitos em excesso ocorreram entre pessoas com 65 anos ou mais — algo em torno de 9 mil mortes entre idosos numa única semana. Isso não é coincidência epidemiológica. É a expressão biológica de uma vulnerabilidade conhecida: a termorregulação se deteriora com o envelhecimento, o sistema cardiovascular responde com menos eficiência ao estresse térmico, e doenças respiratórias preexistentes se agravam quando o ar quente sobrecarrega pulmões já comprometidos. O calor extremo não escolhe vítimas aleatoriamente. Ele segue o mapa da fragilidade.

O que torna os dados ainda mais reveladores é o contraste com as semanas anteriores. Nas oito semanas que precederam a onda, a mortalidade nesses países estava, em média, cerca de 500 mortes abaixo dos níveis típicos por semana — uma linha de base ligeiramente favorável que a onda de calor varreu com violência em sete dias. Lasse Vestergaard, médico-chefe do Statens Serum Institut da Dinamarca, que hospeda a EuroMOMO, foi direto ao ponto em entrevista à Reuters: "É difícil explicar esse alto excesso de mortalidade por qualquer outra coisa que não seja o calor extremo."

A Bélgica registrou o maior pico de mortes em excesso de qualquer onda de calor desde o início dos registros do Sciensano, em 2000. França e Bélgica foram os únicos dois países a atingir mortalidade em excesso "muito alta" na última semana de junho, segundo a própria EuroMOMO.

Há uma dimensão política nesse dado que a epidemiologia não pode ignorar. Cientistas afirmaram que a onda de calor do final de junho teria sido virtualmente impossível sem as mudanças climáticas de origem humana. Isso desloca o problema do domínio da fatalidade natural para o da responsabilidade estrutural. Mortes por calor extremo não são apenas tragédias individuais — são eventos sentinela. Indicam o que os sistemas de saúde, de habitação e de proteção social conseguem e não conseguem absorver quando a temperatura sobe além dos limites históricos.

A Europa de 2003 aprendeu isso da pior forma, com uma onda de calor que matou dezenas de milhares. Sistemas de alerta foram criados, protocolos foram revisados, campanhas de hidratação foram padronizadas. E ainda assim, em 2026, mais de dez mil mortes em excesso numa única semana. Isso não sugere que as respostas foram inúteis — sugere que a intensidade dos eventos superou a capacidade de resposta que foi desenhada para um clima que já não existe.

Os dados da EuroMOMO podem ser revisados nas próximas semanas. O número pode subir. O que não muda é o que ele representa: a temperatura como determinante social de saúde, tão letal quanto qualquer patógeno — e muito menos tratada como emergência de saúde pública.

Camila Torres é médica e epidemiologista, chefe de Saúde da Xaplin.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Europa registra 10,6 mil mortes acima da média durante onda de calor

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.

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