O calor que mata e os mortos que somem
Análise · Clara Verdi Nova Jersey não é o Sul profundo. Não é o Arizona, não é o Texas.
Análise · Clara Verdi
Nova Jersey não é o Sul profundo. Não é o Arizona, não é o Texas. É um estado do corredor atlântico, densamente urbanizado, relativamente rico, com infraestrutura razoável e hospitais que funcionam. Quando ao menos dezenove pessoas morrem ali por causa do calor, o fato não é uma anomalia climática — é um diagnóstico.
O calor extremo é, há anos, a causa ambiental que mais mata nos Estados Unidos. Mais do que furacões, mais do que inundações, mais do que os tornados que dominam o noticiário de catástrofe. E continua sendo a menos visível, porque os seus mortos raramente aparecem juntos, raramente fazem imagem. Morrem em apartamentos sem ar-condicionado, em quartos de asilo mal ventilados, nas calçadas de cidades que não foram pensadas para essa temperatura. A morte por calor não tem a dramaticidade fotográfica do vento que arranca telhados. Por isso, entra como nota, e sai como nota.
Dezenove mortes confirmadas num único estado, num único episódio, é um número que merece parar e não passar. A questão não é apenas climática — é de classe, de raça, de geografia urbana. Quem morre de calor nos Estados Unidos não é quem tem casa com central de ar funcionando e conta de energia paga. É quem não tem escolha de sair do lugar onde está.
O calor não é democrático. Nunca foi. A física do calor urbano é também a física da desigualdade: superfícies de asfalto sem árvore, bairros sem parques, corpos sem renda para climatizar o espaço onde vivem.
Há outra dimensão que o dado conjuntural não captura. O leste e o centro dos Estados Unidos sendo atingidos simultaneamente por uma onda de calor em junho — antes mesmo do pico do verão — é informação que pertence a uma série longa. Não é o primeiro evento assim, e a tendência documentada pela ciência climática é de frequência e intensidade crescentes. O que se chama de excepcional hoje é o que se chamará de normal daqui a uma década. E a infraestrutura das cidades americanas — como a da maioria das cidades do mundo rico — não foi construída para esse normal que está chegando.
Nova Jersey não é o Brasil. Mas o Brasil que lê essa notícia deveria reconhecer o mecanismo. O calor que mata na periferia de São Paulo em fevereiro opera pela mesma lógica: invisibilidade dos mortos, ausência de imagem dramática, facilidade com que o número some no ciclo da informação. Dezenove pessoas. Cada uma com um nome que os boletins oficiais ainda não tornaram público, com uma história que o calor encerrou antes da hora.
O fato é americano. A lição é universal.
**Clara Verdi** | Correspondente Europa, XaplinClara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Onda de calor mata ao menos 19 pessoas em Nova Jersey
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL