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Hamas sai do governo de Gaza — mas não do poder

Análise · Clara Verdi Há uma diferença fundamental, que convém não perder de vista, entre dissolver um governo e dissolver um poder.

Hamas sai do governo de Gaza — mas não do poder
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Há uma diferença fundamental, que convém não perder de vista, entre dissolver um governo e dissolver um poder. O Hamas anunciou na segunda-feira a extinção do órgão que administrou a Faixa de Gaza por quase duas décadas — desde que venceu as eleições legislativas palestinas de 2006 e, no ano seguinte, expulsou a Fatah do território pela força. A notícia circulou com um verniz de mudança histórica. É preciso resistir a esse verniz.

O que o Hamas propõe é a transferência da administração cotidiana para um comitê tecnocrático. Gestão, não política. Distribuição de alimentos, não decisão sobre armas. A distinção importa porque é exatamente nessa fratura — entre quem administra e quem detém o monopólio da força — que se encaixam os projetos mais ambíguos da história recente do Oriente Médio. O Hamas não anunciou desarmamento. Não anunciou eleições. Não anunciou reconciliação orgânica com a Autoridade Palestina. Anunciou que deixará o governo. São coisas radicalmente diferentes.

O contexto é devastador e não pode ser ignorado. Gaza foi submetida a uma campanha militar israelense de proporções que destruíram infraestrutura, deslocaram populações inteiras e reduziram partes do território a escombros. Governar Gaza hoje — no sentido literal de prover serviços, coordenar reconstrução, garantir mínimos de sobrevivência — é uma tarefa que o Hamas tem interesse em delegar. O ônus administrativo de um território em colapso não é poder; é exposição.

Há uma lógica fria nessa manobra: ceder o palco da gestão enquanto se preserva a substância da influência.

Do ponto de vista das negociações mediadas pelos Estados Unidos — que segundo os relatos chegaram a um ponto de estagnação — o anúncio funciona como sinal. O Hamas demonstra disposição para arranjos que não impliquem sua capitulação formal. A pergunta que Washington, Tel Aviv e Ramallah precisarão responder é se um comitê tecnocrático sem autoridade sobre segurança tem alguma utilidade real, ou se serve apenas para criar a aparência de transição sem que nenhuma transição ocorra de fato.

A Autoridade Palestina, enfraquecida e desacreditada no imaginário de boa parte dos palestinos de Gaza precisamente por sua associação com acordos que não geraram Estado, está diante de uma armadilha elegante: assumir a administração de um território destruído, sem soberania, sem controle sobre fronteiras e sem o apoio popular necessário para legitimar qualquer projeto político. Administrar a ruína não é governar.

A Europa, que financia há décadas a Autoridade Palestina e que tem interesse declarado em ver alguma forma de liderança civil palestina funcionar, observa esse movimento sem instrumentos reais de pressão sobre nenhuma das partes. Bruxelas pode reconhecer Estados — como fez com a Palestina, no caso de alguns membros — mas não pode criar a condição política que tornaria esse reconhecimento substantivo. O Hamas sabe disso. Por isso anuncia o que anuncia: uma abertura que é, antes de tudo, uma posição de negociação.

Dissolver o governo de Gaza é um gesto. O que vier depois — ou não vier — é o que vai importar.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Hamas anuncia dissolução do governo de Gaza

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL