O calendário da burocracia e o da chuva
Análise · Luciano Aragão No Vale do Taquari, 91,60% dos desabrigados pelas chuvas do Rio Grande do Sul aguardam uma solução.
Análise · Luciano Aragão
No Vale do Taquari, 91,60% dos desabrigados pelas chuvas do Rio Grande do Sul aguardam uma solução. O dado, preciso e oficial, pertence ao Centro de Operações da Defesa Civil do Estado. É um retrato matemático da crise, onde a cidade de Lajeado concentra 321 dos 488 gaúchos que perderam o teto. Enquanto a contabilidade da tragédia avança, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emite novos alertas. Um deles, de "grande perigo", prevê mais de 100 milímetros de chuva por dia. O ciclo se repete com a pontualidade que falta à prevenção.
A máquina pública move-se em sua velocidade característica. A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil informa que opera na região até 31 de julho, um prazo burocrático para uma crise meteorológica que não consulta o Diário Oficial. Em julho, o governo federal já reconheceu a situação de emergência em 17 municípios. O carimbo permite que prefeitos pleiteiem verbas para água mineral, cestas básicas e kits de higiene. É a liturgia do socorro, essencial mas reativa, acionada quando a água já invadiu as casas de quase 60 mil pessoas em 218 municípios.
A engrenagem federal foi desenhada para remediar, não para antecipar. A liberação de recursos para reconstrução e assistência é a etapa final de um processo que começa com a perda. Enquanto prefeitos preenchem formulários para garantir o atendimento aos flagelados, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emite alerta vermelho de inundação para os rios dos Sinos, Uruguai e Jacuí. A linguagem dos gabinetes e a da natureza seguem em tempos distintos.
O governo federal acerta ao mobilizar a estrutura de resposta. O problema é que esta estrutura, por desenho, chega depois do fato consumado. O alerta amarelo do Inmet para tempestades em todo o estado soa menos como um aviso e mais como a crônica de um desastre anunciado. A população é instruída a evitar áreas inundáveis e buscar abrigo, um conselho que soa oco para quem já está desabrigado. A política climática do país continua a ser uma corrida para mitigar danos, não para evitá-los. O próximo balanço da Defesa Civil já está sendo escrito pela chuva que cai.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
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Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil