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OnlyFans se torna plataforma de exploração sexual legalizada

Agências de gestão de conteúdo digital operacionalizam exploração sexual no Brasil através de contratos estruturados legalmente.

OnlyFans se torna plataforma de exploração sexual legalizada

Análise · Luciano Aragão

Rebecca não assinou contrato com uma agência de exploração sexual. Assinou com uma agência de gestão de conteúdo digital. A distinção, na prática, desapareceu nas primeiras semanas.

O modelo de negócio que a BBC expôs ao descrever dezenas de casos no OnlyFans não é novo — é antigo com nova nomenclatura. O agente que retém metade dos ganhos, monitora as comunicações da criadora, usa ameaças para manter o controle e promete maximizar lucros que nunca chegam integralmente à trabalhadora tem um predecessor histórico. O que mudou foi o vocabulário: hoje ele tem pitch deck, painel de métricas e, eventualmente, CNPJ.

A arquitetura da exploração se apoia em três pilares que a digitalização tornou mais invisíveis, não menos eficazes. Primeiro, o isolamento: a criadora cede o acesso às suas contas, o que significa que o agente controla a interface entre ela e sua renda, entre ela e seus clientes, entre ela e qualquer possibilidade de saída independente. Segundo, o embaraço: o conteúdo produzido é, por natureza, íntimo, o que eleva o custo emocional e reputacional de qualquer conflito público com o gestor. Terceiro, a informalidade estrutural: numa economia de criadores ainda sem regulação consolidada, não há convenção coletiva, não há sindicato, não há piso de referência para discutir o que é uma comissão razoável e o que é extorsão.

A plataforma, nesse arranjo, funciona como shopping center que aluga espaço sem responder pelo que acontece dentro das lojas. O OnlyFans processa as transações, fica com sua fatia e não é parte nos acordos entre criadora e agência. É uma posição juridicamente confortável e moralmente conveniente.

Cinquenta por cento de retenção sobre o trabalho alheio, combinada com ameaças para garantir a continuidade desse trabalho, tem um nome em qualquer código penal. O nome não muda porque o pagamento é feito via Stripe.

O que o relato de Rebecca e das dezenas de outras criadoras ouvidas pela BBC ilumina não é uma distorção do mercado de conteúdo adulto. É a lógica desse mercado funcionando exatamente como foi montado — para quem tem acesso e para quem não tem poder de barganha. A promessa de autonomia que plataformas como o OnlyFans venderam como proposta fundadora — a criadora dona do seu conteúdo, do seu horário, do seu preço — pressupõe que essa criadora chegue ao jogo com capital social, conhecimento de precificação e proteção jurídica que a maioria não tem.

Na ausência disso, o intermediário é inevitável. E o intermediário sem regulação é, historicamente, um problema que as mulheres mais vulneráveis conhecem antes de qualquer legislador.

Não é coincidência que as vítimas descritas na reportagem compartilhem o perfil de quem mais precisa da renda: jovens, sem rede de apoio consolidada, frequentemente em situação financeira frágil. A exploração não encontra vítimas aleatoriamente. Ela tem endereço.

O debate sobre regulação de plataformas de conteúdo adulto costuma travar nas questões de censura e liberdade de expressão. O caso documentado pela BBC sugere que há uma pergunta anterior, mais simples e mais urgente: quem protege a trabalhadora quando o agente que deveria representá-la é quem a ameaça?

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Agências exploram criadoras de conteúdo no OnlyFans com ameaças

Fontes: g1 · BBC News Brasil