A paz de um homem só
Análise · Clara Verdi A paz, quando chega, não costuma pedir licença a ninguém; ela se impõe, muitas vezes, com a brutalidade silenciosa que sucede…
Análise · Clara Verdi
A paz, quando chega, não costuma pedir licença a ninguém; ela se impõe, muitas vezes, com a brutalidade silenciosa que sucede o estrondo das armas. Mas a paz anunciada para Gaza na noite de quinta-feira não tem nada de silenciosa. Ela tem um nome, um rosto e uma rede social própria, e a coreografia de sua chegada parece ter sido ensaiada para um único protagonista, que nem sequer ocupa o palco principal do poder. Donald Trump, de sua plataforma Truth Social, declara um “acordo histórico”, e o mundo, por um instante, parece obrigado a acreditar nele.
O que se seguiu foram as confirmações protocolares, quase um eco distante do tuíte presidencial. Fontes do Hamas, incluindo o negociador Ghazi Hamad, admitiram à imprensa internacional o que antes parecia impensável: o desarmamento. A deposição das armas, essa imagem que funda e encerra conflitos, seria a contrapartida para a retirada completa das tropas israelenses que hoje ocupam mais da metade do território palestino. A tarefa ingrata da fiscalização não caberia a um inimigo ou a um observador distante, mas a um comitê tecnocrático palestino, o Comitê Nacional para a Administração de Gaza.
Uma equação de desconfiança
É uma arquitetura delicada, suspensa sobre a palavra de homens que construíram suas carreiras sobre a negação da palavra do outro. O Hamas insiste que a implementação depende de Israel cumprir primeiro sua parte, um pedido de fiança existencial aos mediadores. Israel, por sua vez, guarda um silêncio que soa mais ruidoso que qualquer comunicado oficial. Nos corredores de Washington, diplomatas anônimos confessam o ceticismo israelense: ninguém em Tel Aviv realmente acredita que as armas serão entregues. A paz de Trump nasce, portanto, sob o signo da desconfiança mútua, com uma “Força Internacional de Estabilização” e um “Conselho da Paz” — ambos de sua própria lavra — como fiadores de uma promessa que ninguém parece inteiramente disposto a comprar.
Resta o texto do acordo, um mapa do caminho que existe mais na esfera da declaração do que na da realidade. É um roteiro para uma Gaza futura, governada por palestinos, segura para israelenses. Uma prosa otimista que tenta apagar o som das escaramuças e dos bombardeios que persistiram mesmo durante o cessar-fogo. A questão, para os palestinos espremidos nos escombros e para os israelenses que olham para o outro lado do muro, não é se a paz foi anunciada. É se ela tem alguma chance de sobreviver ao seu próprio anunciante.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Hamas confirma acordo para desarmamento em Gaza
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo