Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Brasil decreta ponto facultativo para jogo da Seleção

Cidades como Belo Horizonte e Rio de Janeiro adotam segunda-feira como feriado facultativo durante partida da Seleção Brasileira.

Brasil decreta ponto facultativo para jogo da Seleção

Análise · Marcos Tibúrcio

Belo Horizonte e Rio de Janeiro decretaram ponto facultativo para a segunda-feira, dia 29, data em que a Seleção Brasileira entra em campo pela Copa do Mundo. No Rio, a decisão veio do governador interino Ricardo Couto e do prefeito Eduardo Cavaliere. Em BH, da Prefeitura. Dois decretos, uma mesma lógica — e vale a pena parar para pensar nessa lógica.

O Brasil paralisa no dia de jogo da Seleção há décadas. Não é novidade, não é escândalo e talvez não seja nem mesmo uma escolha, no sentido estrito da palavra. É uma capitulação organizada diante de uma força que nenhum decreto criou — e que nenhum decreto conseguiria abolir. O gestor público que tenta ignorar esse fato aprende depressa: os servidores faltam de qualquer jeito. Melhor assinar o papel e transformar a ausência em política.

Mas o que esses decretos dizem sobre o país é mais interessante do que a burocracia que os envolve. Eles dizem que o Estado brasileiro reconhece, formalmente, que há uma coisa maior do que ele próprio. Não uma guerra, não um feriado religioso, não um luto nacional. Um jogo de futebol. Noventa minutos — cento e vinte se der ruim, prorrogação se der dramático, que no Brasil quase sempre dá.

Nelson Rodrigues chamava o futebol de pátria de chuteiras. A imagem resistiu porque capta algo real: para uma parte enorme da população, o jogo da Seleção não é entretenimento. É identidade. É o momento em que o Brasil para de ser um arquipélago de desigualdades e vira, por algumas horas, uma coisa só — barulhenta, contraditória, mas única. O prefeito que decreta ponto facultativo não está sendo irresponsável. Está reconhecendo uma geografia emocional que a ciência política não costuma mapear.

A questão nunca foi se o servidor vai ao trabalho ou fica em casa. A questão é o que esse costume diz sobre a relação deste país com o futebol — e sobre a capacidade que esse esporte tem de suspender, ainda que temporariamente, a gravidade do cotidiano.

Há quem torça o nariz. Há quem calcule o custo econômico do dia parado, some as horas perdidas, escreva artigos sérios sobre produtividade. Esses cálculos não estão errados — mas estão incompletos. Ignoram o que Armando Nogueira sabia de cor: que o futebol brasileiro não é um esporte praticado no país. É um estado de espírito em que o país periodicamente mergulha. E quando a Copa do Mundo bate à porta, o mergulho é inevitável.

BH e Rio formalizaram o óbvio. Outros municípios farão o mesmo, com ou sem decreto, com ou sem comunicado oficial. O Brasil vai parar na segunda-feira. Parou em 1970, parou em 1994, parou em todos os dias de jogo que vieram depois. A diferença é que desta vez a Copa está a poucas horas de avião — e a Seleção, com o peso de doze anos sem título, carrega nas costas algo que vai muito além da bola.

O decreto é só papel. O que está por trás dele é muito mais antigo.

**Marcos Tibúrcio**

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Prefeituras de BH e Rio decretam ponto facultativo no dia do jogo

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo