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Brasil avança às oitavas com arquibancada ausente

Análise sobre a classificação brasileira e o impacto da falta de público no desempenho da seleção.

Brasil avança às oitavas com arquibancada ausente

Análise · Marcos Tibúrcio

Tem uma ironia cruel no ar. O Brasil chegou às oitavas de final de uma Copa do Mundo em solo americano, vai encarar a Noruega — adversário que, em toda a história dos confrontos, nunca bateu — e a única forma de estar presente no estádio é desembolsar R$ 23,4 mil por um camarote. Não é ingresso. É suite. É outro jogo, literalmente.

A arquibancada sempre foi personagem no futebol brasileiro. Não o pano de fundo, não o enfeite — o personagem. O sujeito que empurra, que sofre, que faz o jogador correr mais dois metros quando as pernas já pediram paz. Mário Filho entendeu isso antes de todo mundo. A Copa de 50 não foi só no gramado do Maracanã — foi nas sacadas, nas ruas, nos rostos. O que acontece quando esse personagem é removido da cena e substituído por quem pode pagar R$ 23,4 mil por uma experiência climatizada?

A resposta é simples e incômoda: resta um espetáculo sem drama. Resta o jogo sem o que o jogo precisa para ser mais do que noventa minutos de bola.

A Noruega, por sinal, merece ser tratada com o respeito que o número impõe. Nunca venceu o Brasil. Mas chegar até aqui, às oitavas de uma Copa, já é narrativa suficiente para que ninguém no banco amarelo-verde durma tranquilo. São times que não se conhecem bem, que se enfrentam pouco, e que entram nesse jogo carregando pesos diferentes: o Brasil, com o peso de sempre ganhar; a Noruega, com a liberdade de quem não tem nada a perder e muito a provar.

Esse tipo de partida — desequilíbrio histórico, pressão assimétrica — é exatamente o que transforma oitavas de final em armadilhas.

E é justamente nesse contexto que a ausência da torcida brasileira no estádio importa além do simbólico. Camarote não canta. Camarote não devolve energia ao campo quando o time está em dificuldade. Camarote assiste. Há uma diferença fundamental entre assistir e estar. O futebol foi inventado para o segundo.

O modelo de precificação de ingressos em Copas do Mundo não é novidade e tampouco é exclusividade brasileira — outros torcedores pelo mundo enfrentam a mesma barreira. Mas há algo de particularmente severo em ver o Brasil disputar uma oitavas de final com o acesso popular bloqueado. A seleção que, mais do que qualquer outra, construiu sua identidade sobre a relação visceral com quem está nas arquibancadas.

No domingo, haverá brasileiros no estádio. Nos camarotes, nos assentos que sobraram, nos bolsos que aguentaram. A maioria estará do lado de fora — em bares, em casas, em praças — torcendo da mesma forma de sempre, sem que ninguém tenha pedido autorização para isso. O jogo acontece. A torcida aparece onde pode.

Mas o estádio estará mais silencioso do que deveria. E o Brasil vai sentir, em algum momento, a falta desse barulho.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil x Noruega tem apenas camarotes disponíveis por R$ 23,4 mil

Fonte: ge