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O Brasil da portaria e o da intempérie

Análise · Luciano Aragão A sexta-feira (24) em Brasília terminou como tantas outras: com uma canetada no Diário Oficial da União.TÍTULO: O Brasil…

O Brasil da portaria e o da intempérie
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

A sexta-feira (24) em Brasília terminou como tantas outras: com uma canetada no Diário Oficial da União.TÍTULO: O Brasil da portaria e o da intempérie

A sexta-feira (24) em Brasília terminou como tantas outras: com uma canetada no Diário Oficial da União. Desta vez, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil reconheceu a situação de emergência em 31 municípios. O ato, burocrático e asséptico, destrava o caminho para que prefeitos solicitem recursos. É a formalidade possível diante do caos real. Enquanto a tinta seca no papel timbrado, um país se afoga e outro vira pó.

A geografia da crise, exposta na frieza das portarias, revela um retrato da fratura climática nacional. No Rio Grande do Sul, 17 cidades, de Áurea a Vila Nova do Sul, sucumbiram a chuvas intensas e vendavais. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) projeta mais água, com risco de inundação nas bacias dos rios Uruguai, Taquari e Caí. As imagens são de alagamento, de estruturas danificadas, da força desmedida da natureza.

A milhares de quilômetros, a mesma Defesa Civil Nacional olhou para o Nordeste e viu o oposto. Em 13 municípios da Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Piauí, o problema não é o excesso, mas a ausência. A emergência foi decretada por estiagem ou seca. Lá, o tempo segue firme, quente e sem previsão de alívio. A terra racha, a produção míngua e a água é um ativo cada vez mais escasso.

O governo federal opera por um único instrumento para duas tragédias antagônicas. A mesma medida que pode financiar a reconstrução de uma ponte levada pela enchente em Sananduva (RS) serve para mitigar os efeitos da secura em São João do Cariri (PB). A lógica é a do balcão: o prefeito em apuros preenche os formulários, anexa os laudos e aguarda a homologação que lhe permitirá pleitear verbas.

É um mecanismo reativo, acionado após o colapso. O Diário Oficial não previne o desastre, apenas o certifica. Entre a publicação de um ato administrativo em uma capital planejada e a realidade de quem perdeu a casa para o temporal ou a lavoura para a seca, existe um abismo. A portaria é o reconhecimento formal de que, mais uma vez, a estrutura falhou em antecipar a fúria do clima.

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Defesa Civil reconhece emergência em 31 municípios

Fontes: g1 · UOL