Seleção brasileira vence e ganha respaldo técnico
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma diferença entre passar e atravessar.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma diferença entre passar e atravessar. O Brasil passou pela fase de grupos — mas nesta segunda-feira, diante do Japão, teve de atravessar algo. A vitória por 2 a 1, com virada, não é apenas resultado: é o primeiro sinal de que esta seleção existe de verdade, que tem pulso quando o placar pesa contra.
O histórico é impecável — cinco jogos contra equipes asiáticas em Copas do Mundo, cinco vitórias — mas a aritmética não conta a história inteira. Nunca conta. O que importa é que o Japão abriu o placar, que o Brasil ficou atrás, e que a reação não veio do automatismo de uma máquina, mas do desconforto de homens que precisavam decidir quem eram. Isso tem valor diferente de uma goleada tranquila.
Toda seleção em Copa do Mundo tem um momento em que para de ser escalação no papel e vira time. Às vezes esse momento chega no segundo jogo, às vezes na semifinal — e quando chega tarde demais, vira tragédia. Para este Brasil, o batismo, como se chamou lá fora, veio aqui. Na fase que muitos encaram como protocolo, como sala de espera para o que vem depois.
A fase de grupos tem essa armadilha: parece menor do que é. Equipes que navegam nela sem resistência chegam às oitavas com um corpo aquecido, mas sem memória de dor. E futebol sem memória de dor é frágil.
O Japão não é adversário para ignorar. É seleção que construiu, ao longo de duas décadas, uma identidade coletiva rara — pressa, pressão alta, transição veloz. Quando marcou primeiro, não foi acidente: foi sistema funcionando. O Brasil que respondeu e virou é um Brasil que teve de se reorganizar em campo, não apenas executar o que estava ensaiado. Esse é o exercício que a Copa cobra mais cedo ou mais tarde.
O que esta vitória faz, portanto, vai além dos três pontos e do aproveitamento histórico preservado. Ela instala na seleção uma narrativa interna — a de que este grupo sabe o que fazer quando o chão some. Narrativas internas não aparecem em tabela nenhuma, mas qualquer jogador que já disputou torneio longo sabe que elas são o que sustenta um time nas noites em que o talento individual não basta.
O Brasil está nas oitavas. Mas mais do que isso: está, pela primeira vez nesta Copa, com um rascunho de identidade. Virada não é só resultado. É argumento. E este grupo acabou de fazer o seu.
Marcos Tibúrcio é chefe de Esporte da Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil vence Japão na Copa e mantém 100% contra asiáticos
Fontes: Folha de S.Paulo · ge