Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Heitor Graça ouve o silêncio de Copacabana

O porteiro novo de Heitor Graça aprecia o silêncio de Copacabana após a meia-noite, revelando uma perspectiva única.

Heitor Graça ouve o silêncio de Copacabana
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

O porteiro novo, seu Antônio, disse ontem que gosta do silêncio de Copacabana depois da meia-noite. Olhei para ele, coçando o queixo, pensando se ele falava sério. Aqui o silêncio é uma sucessão de barulhos menores: a freada do último ônibus, a sirene distante que nunca se sabe se chega ou se vai, a risada que sobe de um bar de esquina. Respondi que sim, claro, um sossego. Era mais fácil concordar.

Hoje, com o café na mão e o jornal na outra, leio sobre o Complexo de Israel, na Zona Norte. Não sobre o silêncio, mas sobre sua fabricação forçada. Duzentos e vinte homens da polícia entraram lá para uma ocupação por tempo, diz a nota, indeterminado. Os nomes das unidades militares formam uma sopa de letrinhas que soa como um trava-línguas de guerra: COE, Bope, Choque, CPA, BPVE, RECOM. Fazem varreduras com cães, trocam de turno no próprio local, como se a vida comum devesse se acostumar à bota no seu encalço.

Lembro de uma vez, há muitos anos, num fim de tarde em Vigário Geral, antes de virar este nome bíblico e trágico de hoje. Eu estava na casa de um amigo músico, e a luz do fim de tarde entrava pela janela cortando a poeira que a gente levantava dançando. O som que vinha da rua era de criança jogando bola, de vizinha chamando para o jantar, do funk que vazava de um carro. Um som normal, de vida pulsando sem pedir licença.

O jornal fala de um traficante que impõe uma ditadura com fachada religiosa, que construiu até uma casamata com seteiras, como um castelo medieval no meio do subúrbio. É uma história que parece roteiro de filme, mas é só a terça-feira de gente que eu nunca vou conhecer. É evidente que esta leitura, feita da minha varanda, ignora a urgência de quem vive sob essa mão de ferro. Para esses, talvez a bota seja um alívio temporário.

Mas me pergunto sobre o som que existe agora em Parada de Lucas, em Cinco Bocas. Se é silêncio de paz ou apenas o barulho da vida em suspenso. Se a criança parou com a bola no meio da rua, se a vizinha fala mais baixo na janela, esperando o próximo ruído que não seja o de sempre. Aqui, o silêncio da madrugada é só uma pausa. Qual será o som que eles esperam por lá quando tudo isso acabar?

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: PM ocupa por tempo indeterminado Complexo de Israel no Rio

Fonte: Agência Brasil