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O barulho do vento numa sexta-feira vazia

Crônica · Heitor Graça A primeira rajada sacudiu a janela da sala com a fúria de quem chega sem ser convidado.

O barulho do vento numa sexta-feira vazia
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

A primeira rajada sacudiu a janela da sala com a fúria de quem chega sem ser convidado. Foi um baque seco, de vidro contra esquadria, que fez o copo d’água sobre a mesa tremer por um instante. Olhei para fora. A tarde de sexta-feira, que prometia a agitação de sempre, estava estranhamente quieta. Copacabana parecia ter sido esvaziada por um decreto invisível.

Meu celular, esquecido no sofá, tinha piscado mais cedo com uma mensagem de letras maiúsculas. Um aviso para voltar para casa, garantir a segurança, evitar deslocamentos. O governo, a prefeitura, todos com a mesma pressa em nos trancar. A cidade inteira, de Marambaia a Petrópolis, encolhendo-se antes da ventania. Em Copacabana, diziam, o vento já batia a mais de cinquenta quilômetros por hora. Cinquenta e três, para ser exato. Um número preciso para uma ameaça tão difusa.

Do meu andar, vejo a rua sem o seu habitual formigueiro. Não há crianças saindo da escola, nem o trânsito impaciente das cinco da tarde. Os parques, onde casais namorariam e cachorros correriam, estão de portões fechados. O estado decretou o dia útil encerrado à uma da tarde. Deu aos seus a bênção de uma fuga antecipada. A cidade grande, com seu pavor de se machucar de novo depois da última ventania, resolveu parar por precaução.

Um entregador de bicicleta passa, desafiando o vento. A mochila colorida às costas funciona como uma vela desgovernada. Ele pedala com dificuldade, o corpo inclinado, lutando contra uma força que não se vê. É a única alma na calçada. Por um momento, ele me parece o único habitante de uma cidade inteira que se rendeu.

O vento assobia outra vez, agora com um lamento comprido, e eu me pergunto quantas janelas estarão fechadas como a minha, quantas pessoas estarão olhando para fora, esperando. Quantos de nós, obedientes e seguros, estamos com inveja daquele rapaz na bicicleta?

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

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Fonte: Agência Brasil