O astronauta reclama do Outlook. Dona Carmem não se surpreende.
Mais tempo pra pensar — que é o que eu faço de melhor, segundo o Geraldo.
Eu tava no ponto, como sempre. Sexta-feira Santa, menos ônibus. Mais espera. Mais tempo pra pensar — que é o que eu faço de melhor, segundo o Geraldo. Segundo minha filha, eu faço melhor reclamar. Mas enfim.
A moça do lado tava vendo o celular e riu. Mostrou pra mim: os astronautas da Artemis, aqueles que estão indo pra Lua — a Lua, meu filho! —, reclamaram que o Outlook parou de funcionar. O comandante disse pra Houston: "Tenho duas versões do Outlook e nenhuma funciona".
Eu disse: "Bem-vindo ao clube".
A tecnologia é igual pra todo mundo
A gente acha que astronauta vive num mundo diferente. Que lá em cima tudo funciona, tudo é perfeito, tudo é tecnologia de ponta. E aí o cara tá voando pra Lua e o email não abre. Igualzinho a mim tentando pagar o boleto no aplicativo do banco que trava toda terça.
Mandaram o homem pra Lua de novo. Cinquenta e três anos depois da última vez. E o software de email continua dando problema. Tem coisa que não evolui. A paciência humana, por exemplo.
A missão Artemis 2 é a mais avançada da história. Quatro astronautas, dez dias, vão dar a volta na Lua. Disseram que o celular da gente tem mais poder de computação do que toda a NASA em 1969. E mesmo assim — mesmo assim — o Outlook não funciona.
O que a Lua ensina sobre a fila do ônibus
Eu fico pensando: se nem pra ir pra Lua a tecnologia funciona direito, por que a gente se mata de raiva quando o Wi-Fi cai? Quando o aplicativo trava? Quando o ônibus não vem?
Talvez a lição seja essa: imperfeição é a regra, não a exceção. O astronauta lá em cima tem o mesmo problema que eu aqui embaixo. O email não abre. O vaso sanitário dá defeito — isso também aconteceu, saiu na notícia. A condição humana não muda com a altitude.
Mas eles foram
E é isso que me impressiona de verdade. Não que tudo funcione — não funciona. Mas que eles foram mesmo assim. Com o Outlook quebrado, com o banheiro com defeito, com o medo que todo ser humano tem quando olha pro desconhecido.
Foram.
Talvez seja isso que eu deveria lembrar quando o ônibus atrasa. A gente não precisa que tudo funcione pra continuar indo. A gente só precisa continuar indo.
O 474 chegou. Fui.
Dona Carmem — Filosofia de Ponto de Ônibus. Banca de Jornal, Xaplin.