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O assobio fino do décimo andar

Crônica · Heitor Graça A janela do quarto, que sempre foi de fechar com alguma teimosia, hoje bateu sem pedir licença. Um baque seco.

O assobio fino do décimo andar
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

A janela do quarto, que sempre foi de fechar com alguma teimosia, hoje bateu sem pedir licença. Um baque seco. Não fosse por ela, eu talvez nem notasse o vento. É um desses dias em que o céu de Copacabana se decide por um cinza indeciso, sem a dignidade de uma chuva torrencial nem a leveza da maresia. Um cinza de repartição pública.

Lá fora, as palmeiras da Atlântica chicoteiam o ar com uma fúria que não lhes pertence. Estão acostumadas a um balanço mais macio, quase um aceno para os turistas. Hoje, não. Hoje elas se debatem. O vento chega aqui no décimo andar com um assobio fino, um som agudo que se espreme pela fresta da esquadria. É um som que me lembra da fragilidade das coisas que construímos para nos manter do lado de dentro.

Os jornais digitais e os homens do tempo chamam de ciclone, de massa de ar, de aviso amarelo com ventos de até sessenta quilômetros por hora. Nomes técnicos para uma ventania que, na prática, apenas arranca o chapéu de um senhor apressado lá embaixo e faz o toldo da padaria estalar como um tiro. A vida, despida de meteorologia, é sempre mais simples.

Penso nos amigos do Sul, que me mandarão fotos de grama coberta por uma película branca, delicada e fria. Geada. Lá, o frio se anuncia com essa beleza silenciosa, essa pintura. Aqui, ele chega de supetão, bagunçando o cabelo e batendo as janelas. É um frio menos poético, mais arrepiado. Um frio que nos pega de bermuda e nos manda para dentro em busca de um casaco esquecido no fundo do armário.

A ventania deve passar, como todas as outras. O céu voltará ao seu azul habitual, e as palmeiras, ao seu aceno preguiçoso. Mas, por enquanto, fico aqui ouvindo este assobio. Um lembrete de que mesmo na solidez deste prédio, há sempre uma fresta por onde o mundo se anuncia. E que barulho ele faz.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

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Fonte: Agência Brasil