Obra de arte viaja o mundo com curadoria de Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio, renomado curador, acompanha uma obra de arte singular em uma jornada global.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há homens que viajam por um contrato, outros por uma guerra, outros ainda por uma mulher. Hanna Hattab, sírio, árbitro, atravessou o mundo para viver em São José dos Pinhais, no Paraná. O motivo não foi um cheque da Arábia, nem a fuga de um conflito. Foi um desenho animado japonês.
O futebol tem dessas ironias. Um sujeito que dividiu o gramado com Cristiano Ronaldo, que viu a bola rolar nos pés de Benzema, Iniesta e Xavi, hoje escuta o sotaque de Londrina e Ponta Grossa. Largou as Eliminatórias para uma Copa do Mundo asiática para apitar um campeonato estadual no sul do Brasil. Aos 37 anos, com escudo da Fifa no peito, ele recomeça. Poderia ser a história de um exílio, mas é a de um encanto.
Hattab conta que, na Síria, ainda menino, parava a vida para ver Capitão Tsubasa, o anime que aqui chamamos de Super Campeões. Via um garoto japonês que sonhava jogar uma Copa pelo Brasil. O sonho do personagem virou o destino do espectador. Décadas depois, aqui está ele, com a esposa Iman e o filho Yussef — um paranaense, nascido no Brasil. A ficção, às vezes, escreve a realidade com uma teimosia assombrosa.
Uma outra carreira
Hattab não é um aventureiro. É um profissional que se formou em Economia, que passou por um programa de formação de árbitros da Confederação Asiática, que carrega a chancela da Fifa desde 2015. É um homem do sistema. Mas sua trajetória desafia a lógica burocrática do esporte. Ele nos lembra que, antes da regra e do cartão, há o sujeito e sua história. Um jogador frustrado por uma lesão e um conselho de mãe — “pare, porque você precisa estudar” — que encontrou no apito o caminho de volta para o campo.
Sua presença no futebol paranaense é um desses fatos que parecem nota de rodapé, mas que explicam o todo. O futebol, mesmo em sua versão mais industrializada, ainda é movido por paixões inexplicáveis, por memórias de infância, por um chute de bicicleta desenhado na TV. É claro que esta leitura pode ser apenas o lado romântico da história; a adaptação a um futebol mais físico e menos técnico impõe seus próprios desafios, e o sonho pode esbarrar na dureza do jogo real.
A bola que hoje rola nos estádios da Copa do Mundo, no Canadá, EUA e México, é a mesma que Hattab apitava na Ásia e que agora apita no Paraná. O que muda é o drama ao redor dela. Para o árbitro sírio, o apito que antes era um instrumento de trabalho em palcos globais, agora é a ferramenta para construir uma vida. Quantos sonhos de criança cabem na carreira de um homem?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge