Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

EUA assinam acordo nuclear e depois ignoram compromissos

Os EUA têm histórico de retirada de acordos internacionais. O Irã denuncia repetidamente os americanos por descumprir pactos diplomáticos.

EUA assinam acordo nuclear e depois ignoram compromissos

Análise · Clara Verdi

Existe uma gramática específica nas acusações que o Irã faz aos Estados Unidos, e ela raramente muda: denúncia formal, linguagem jurídica, apelo a um quadro normativo que a outra parte nunca reconheceu como vinculante. A acusação de "violação flagrante" do acordo de paz, lançada por Teerã neste sábado após novos ataques americanos, repete essa estrutura com uma fidelidade quase ritual. O problema é que o ritual, desta vez, ocorre sobre um acordo que supostamente encerrou uma guerra — e isso muda o peso de tudo.

A sequência lógica do que está sendo relatado é, em si, uma sentença sobre a natureza dos acordos firmados sob pressão e conveniência: os dois lados concordam em parar; os ataques continuam; o lado que atacou nega ou justifica; o lado atingido acusa e documenta. Esse ciclo tem uma história longa no Oriente Médio, mas o elemento novo aqui é precisamente a existência de um acordo formal de paz recente o suficiente para ainda ter nome e data. Não estamos falando de uma trégua informal, de um entendimento verbal entre mediadores. Estamos falando de algo que foi chamado de acordo — e que os Estados Unidos, segundo o Irã, violaram de maneira flagrante.

A palavra "flagrante" não é retórica vazia no vocabulário diplomático iraniano. Ela implica visibilidade, publicidade, a impossibilidade de negar o que foi feito. É uma acusação construída para audiências — para Moscou, para Pequim, para os países do Sul Global que observam esse conflito como um teste de como as grandes potências honram seus compromissos quando o custo de honrá-los sobe. O Irã sabe que não ganha a guerra nos campos de batalha com os Estados Unidos. Há décadas tenta ganhá-la na arena da legitimidade internacional.

A pergunta que fica sem resposta no material disponível — e que precisaria de resposta — é o que os Estados Unidos dizem sobre os ataques. Silêncio, negação ou reinterpretação do acordo: cada uma dessas respostas tem implicações distintas, e a ausência delas no registro disponível é ela mesma um dado.

Do ponto de vista europeu, onde acompanho essa cobertura, o que se observa com crescente desconforto é a erosão do próprio conceito de acordo como instrumento de paz. Se um acordo pode ser assinado e depois desconsiderado sem que haja custo político real para quem o desconsiderou, o que exatamente os diplomatas estão negociando quando negociam? A Europa tem interesse direto nessa pergunta — não por solidariedade ao Irã, que nenhuma chancelaria europeia expressaria abertamente, mas porque os mesmos mecanismos que tornam acordos descartáveis no Oriente Médio são os mecanismos que fragilizam qualquer arquitetura de segurança em qualquer parte do mundo, inclusive no leste do continente.

Um acordo violado no dia seguinte não é um acordo que falhou. É uma declaração sobre o que o acordo nunca foi.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã acusa EUA de violar acordo de paz após ataques

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL