O 11º lugar e o peso de uma herança que virou fardo
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma crueldade silenciosa nos números do futebol.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma crueldade silenciosa nos números do futebol. O Brasil terminou a Copa do Mundo de 2026 em 11º lugar — eliminado nas oitavas pela Noruega, numa derrota por 2 a 1 que vale menos como placar e mais como diagnóstico. O 11º lugar não é uma anomalia. É, na história do torneio, a segunda pior colocação em 23 participações. Só perde para 1934, quando o Brasil caiu em jogo único contra a Espanha, numa época em que o futebol brasileiro ainda aprendia a se enxergar no espelho do mundo.
O paralelo mais perturbador não é com 1934. É com 1966. Naquele ano, o Brasil saiu ainda na fase de grupos — com 16 seleções no torneio, o que tornava o feito ainda mais humilhante. Sessenta anos depois, com 48 países disputando vagas, Carlo Ancelotti levou a seleção até as oitavas e parou ali. O resultado é o mesmo: 11º. A sensação, para quem conhece a linhagem desta camiseta, é pior.
Ancelotti chegou com o prestígio de quem ganhou tudo na Europa. Chegou como solução depois de anos de instabilidade técnica. E foi nas oitavas — a fase dos grandes torneios onde o Brasil, historicamente, quase nunca tropeçava — que a Copa terminou. A Noruega, com Haaland entre os artilheiros do torneio ao lado de Messi e Mbappé, não foi surpresa nem acidente. Foi um time que jogou para ganhar e ganhou.
O Brasil foi pentacampeão. Foi vice duas vezes. Chegou ao 7º lugar em 2022, ao 6º em 2018, ao 4º em 2014 com o trauma das seis bolas dentro em Belo Horizonte. A linha que conecta esses resultados não é de azar — é de estrutura.
Neymar foi fotografado em lágrimas, consolado por Vini Jr e Raphinha. É uma imagem que resume a contradição desta geração: talento individual acima da média, incapacidade coletiva de transformar isso em campanha. Em seis Copas, Neymar encerra sua trajetória no torneio sem o único título que sua carreira ainda buscava. A Copa de 2026 foi seu ato final — e aconteceu nas oitavas.
Do lado de fora, Cristiano Ronaldo também se despedia, eliminado com Portugal pela Espanha, terminando em 13º. Duas das maiores carreiras individuais do futebol contemporâneo encerraram seus capítulos mundialistas na mesma rodada, sem medalha, sem pódio. Há algo de fim de era nessa coincidência que nenhum comunicado oficial vai explicar direito.
O Brasil lidera o ranking histórico de quartas de final do torneio ao lado da Alemanha. É um patrimônio real. Mas patrimônio não se joga — e nas últimas quatro Copas, a seleção não chegou uma vez sequer à semifinal. O debate que vem agora — sobre modelo de jogo, sobre base, sobre identidade — é o mesmo de sempre. Só que desta vez chega com um número novo colado na testa: 11º. E esse número não vai embora tão cedo.
Marcos Tibúrcio, Xaplin Esporte
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge