O gato acerta, mas o futebol teima em escapar
Análise · Marcos Tibúrcio Seis de oito. É um número que impressiona — até você lembrar que o futebol existe exatamente para humilhar os que acreditam…
Análise · Marcos Tibúrcio
Seis de oito. É um número que impressiona — até você lembrar que o futebol existe exatamente para humilhar os que acreditam tê-lo domado. O Gato Mestre, sistema desenvolvido pelo economista Bruno Imaizumi a partir de dados da FIFA, Opta, Transfermarkt e FBref, cruzados pela distribuição de Poisson Bivariada e simulados por Monte Carlo, acertou a classificação de Marrocos, França, Inglaterra, Espanha, Bélgica e Argentina para as quartas de final desta Copa. Três quartos do que importa. Mas foi nos outros dois quartos que o torneio mostrou sua natureza.
A Noruega tinha 31% de chance de eliminar o Brasil. Eliminou. A Suíça foi aos pênaltis contra a Colômbia e avançou quando o algoritmo apontava para os colombianos. Dois resultados, dois recados. O futebol não desobedece à estatística por capricho — ele simplesmente habita um espaço que a estatística ainda não conseguiu colonizar por inteiro. Os 31% da Noruega não eram ruído no modelo; eram, na verdade, a confissão honesta de que quase um terço das vezes aquilo podia acontecer. Aconteceu. A surpresa é nossa, não do número.
O modelo não errou a Noruega. Quem errou foi o Brasil — e essa é uma distinção que dói mais do que qualquer planilha consegue registrar.
Há algo de fascinante, e levemente inquietante, no fato de que um gato — o animal que a cultura popular elegeu símbolo do mistério e da imprevisibilidade — dê nome a um sistema que tenta justamente reduzir o imponderável a probabilidades. A ironia não é acidental. Imaizumi e sua equipe sabem que estão jogando num território que resiste à captura total. O xG, a expectativa de gol que considera ângulo, distância e posicionamento de cada finalização, é uma ferramenta séria, consagrada internacionalmente. Mas uma finalização é também Vinicius no segundo minuto, a bola quicando estranha, o goleiro norueguês com os reflexos do homem que dormiu bem. Isso não entra na planilha.
O que o desempenho do Gato Mestre revela, nesta Copa, não é a onipotência da análise de dados, mas sua maturidade. Acertar 14 dos 16 classificados para as oitavas e agora seis dos oito para as quartas é, no acumulado, uma taxa que nenhum comentarista de mesa-redonda sustentaria. O modelo funciona melhor onde a diferença entre as seleções é estrutural e consistente — França, Espanha, Argentina têm padrões de ataque e defesa que o algoritmo lê com clareza. Onde o jogo se decide nos milímetros de uma cobrança de pênalti ou na corrida de quarenta metros de um atacante que não constava como ameaça principal, a estatística encolhe os ombros com elegância e admite seus limites.
Para as quartas de final, França lidera as chances de título com 24%, Espanha com 23%, Argentina com 19%. São números que orientam, não que decretam. A Suíça que bateu a Colômbia nos pênaltis sabe disso. A arquibancada em Dallas ou Toronto, que viu a bola entrar quando não deveria, também sabe. O gato acerta seis de oito e o futebol agradece — mas avisa que guarda os outros dois para si.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Gato Mestre acerta seis dos oito classificados para quartas da Copa
Fonte: ge