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Nos Campos Flegrei, a terra nunca esquece

Análise · Clara Verdi A terra tremeu de novo em Campi Flegrei, perto de Nápoles, com a força de um soco seco de magnitude 4,7.

Nos Campos Flegrei, a terra nunca esquece
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A terra tremeu de novo em Campi Flegrei, perto de Nápoles, com a força de um soco seco de magnitude 4,7. A notícia chega com os números de praxe — oito feridos, danos em prédios, linhas de trem suspensas —, mas os números, como sempre, contam a parte menos interessante da história. O que aconteceu na noite de sexta-feira não foi um evento geológico isolado, mas o eco de uma memória profunda, a manifestação física de uma angústia que define a vida sobre uma caldeira vulcânica.

Nápoles e seus arredores vivem sob a sombra não de uma, mas de duas ameaças mitológicas: o Vesúvio, que sepultou Pompeia, e os Campos Flegrei, o supervulcão que respira sob os pés de centenas de milhares de pessoas. É uma convivência íntima com o precário. A terra ali não é um chão neutro, um simples suporte para a vida, mas um protagonista imprevisível e violento. Os blocos de tufo, essa rocha de origem vulcânica que desabou sobre carros em Pozzuoli, são a própria matéria da qual são feitas as casas e o medo que as habita. Constrói-se com o material da própria destruição.

Quando os moradores correm para as ruas e decidem passar a noite ao relento, não o fazem apenas por um cálculo racional de segurança. É um gesto ritualístico, uma resposta a um chamado que vem de baixo. O que está em jogo é a memória coletiva da crise sísmica dos anos 1980, um trauma que nunca foi inteiramente processado, apenas adormecido. Cada tremor, por mais fraco que seja, reaviva o pavor de que a terra possa, a qualquer momento, abrir-se em definitivo.

O monitoramento reforçado pelo governo, os boletins do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, tudo isso pertence ao vocabulário da modernidade que tenta domesticar a natureza. Mas em Campi Flegrei, a ciência parece apenas uma forma sofisticada de auscultar um monstro antigo. O tremor de sexta-feira, a três quilômetros de profundidade, foi um sussurro muito perto da superfície. Um lembrete de que, no sul da Itália, a história não está apenas nos livros ou nas ruínas, mas na própria instabilidade do solo que se pisa.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de magnitude 4,7 atinge sul da Itália

Fontes: g1 · UOL