Neymar, um homem em guerra contra o seu próprio time
Análise · Marcos Tibúrcio Houve um momento, aos pés da Serra do Mar, em que a Vila Belmiro pareceu um teatro de um homem só. Neymar voltou ao Santos.
Análise · Marcos Tibúrcio
Houve um momento, aos pés da Serra do Mar, em que a Vila Belmiro pareceu um teatro de um homem só. Neymar voltou ao Santos. Não o Neymar que foi para a Copa do Mundo, mas um outro — um personagem mais amargo, mais urgente, um homem que trazia nos ombros o peso do fracasso no Mundial e, talvez o que seja pior, a cruz de carregar um time que não o acompanha.
Contra a Chapecoense, o lanterna, ele foi o início, o meio e o fim. Fez os dois gols. O primeiro, uma memória do que sempre foi: tabela curta, raciocínio de milésimos, o toque que humilha o goleiro. O segundo, de pênalti, foi um ato de pura responsabilidade — ele sofre a jogada, ele ajeita a bola, ele converte. Entre uma coisa e outra, foi o dono de quase metade das finalizações do time. A estatística é fria, mas a cena era quente. Era Neymar e dez sombras.
E aqui reside o drama. O gênio vive de cumplicidade. Pelé tinha Coutinho. Zico tinha Adílio. Romário tinha Bebeto. Neymar, neste sábado de empate com gosto de derrota, tinha a sua própria impaciência como parceira. Gritou com Escobar por um passe torto. Gesticulou para Barreal por uma decisão errada. Sua linguagem corporal não era a de um capitão, mas a de um exilado em seu próprio campo. Cada erro de um companheiro soava como uma ofensa pessoal.
Até a comemoração teve o gosto do fel. Ao marcar, simulou distribuir cartas de baralho. Não era um gesto para a Vila, mas um recado para os corneteiros de plantão que o criticaram por jogar pôquer. Em seu retorno, Neymar não queria apenas jogar futebol; queria ajustar contas. Com os críticos, com os companheiros, com a arbitragem. A guerra era em tantas frentes que o adversário de verde parecia o menor dos problemas.
O cartão amarelo, recebido por um empurrão infantil, encerra o espetáculo. Não jogará a próxima partida. Talvez seja um alívio, para ele e para os outros. Saiu de campo cabisbaixo, depois de entregar a camisa ao português Rafael Leão, como quem se despede de um fardo. A torcida do Santos viu seu ídolo fazer tudo. E viu, também, que quando um homem tenta ser o time inteiro, o resultado mais provável é o empate.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge