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Netflix produz série sobre Machado de Assis com José Padilha

Prevista para 2027, a produção terá oito episódios com roteiro de Anna Muylaert e George Moura. Seu Jorge interpreta o escritor.

Cultura — Televisão

A Netflix confirmou nesta segunda-feira a produção de "O Bruxo do Cosme Velho", série baseada na vida e obra de Machado de Assis. Com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2027, a produção terá 8 episódios, direção de José Padilha ("Tropa de Elite", "Narcos") e roteiro de Anna Muylaert e George Moura. O papel de Machado será de Seu Jorge — decisão que, antes mesmo do primeiro dia de filmagem, já gerou debate.

Por que Machado, por que agora

Machado de Assis (1839-1908) é, por consenso da crítica internacional, o maior escritor brasileiro e um dos maiores do século XIX. Mulato, epiléptico, gago, nascido no Morro do Livramento, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa, fundou a Academia Brasileira de Letras e escreveu romances que anteciparam o modernismo em 30 anos. Sua vida é, por si só, uma série — e é surpreendente que tenha demorado tanto para virar uma.

A resposta para o "por que agora" é mais pragmática: o Oscar de "Ainda Estou Aqui" abriu o mercado americano para conteúdo brasileiro. A Netflix, que investiu US$ 200 milhões em produções brasileiras em 2025, identificou em Machado a combinação perfeita de prestígio literário e apelo narrativo. A plataforma busca, cada vez mais, séries de prestígio em mercados não anglófonos — e Machado é a aposta mais segura do catálogo lusófono.

"Machado de Assis é o escritor mais moderno do século XIX. Escrevia como se soubesse que, 150 anos depois, alguém transformaria seus livros em série. Provavelmente sabia."

A escolha de Seu Jorge

Escalar Seu Jorge como Machado é, ao mesmo tempo, uma declaração política e artística. Machado era mulato em um Brasil escravocrata — fato que a historiografia literária passou décadas embranquecendo (pinturas da época e da Academia retratam Machado com traços europeus). A escalação de Seu Jorge resgata a negritude de Machado e a coloca no centro da narrativa.

A escolha não foi unânime. Puristas questionam a falta de semelhança física. Críticos de casting apontam que Seu Jorge é mais conhecido como músico do que como ator. Mas quem o viu em "Cidade de Deus" (2002) e "A Vida Aquática" de Wes Anderson (2004) sabe que existe ali um ator de presença magnética — exatamente o que Machado, com sua introversão calculada e ironia devastadora, exige.

O que esperar da série

Segundo a Netflix, "O Bruxo do Cosme Velho" não será uma cinebiografia linear. A série alternará entre a vida de Machado — desde a infância no morro até a fundação da ABL — e dramatizações de seus romances e contos, com os mesmos atores interpretando personagens machadianos. Machado-narrador comentará a própria vida com a ironia que o caracteriza, quebrando a quarta parede à maneira de "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Se funcionar, será a melhor coisa que já aconteceu a Machado desde a própria obra. Se não funcionar, pelo menos terá colocado o nome na boca — e nas telas — de milhões de pessoas que nunca abriram "Dom Casmurro". Em ambos os cenários, Machado ganha.

Redação Xaplin