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Na Indonésia, a terra não celebra a independência

Análise · Rafael Tokyo Em um país de 17 mil ilhas, a terra firme é uma promessa, não uma certeza.

Na Indonésia, a terra não celebra a independência
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Análise · Rafael Tokyo

Em um país de 17 mil ilhas, a terra firme é uma promessa, não uma certeza. Nesta segunda-feira, dia em que a Indonésia deveria celebrar sua independência, o chão de Nusa Tenggara Oriental tremeu. De novo. Quase 1.600 réplicas desde o sismo principal. Uma delas, de magnitude 5.6, sacudiu o que restava da manhã e da normalidade.

A contagem oficial é de 68 mortos e mais de 200 feridos. Mas os números são apenas o esqueleto da história. A carne está no estacionamento de um centro de saúde danificado na região de Ende. Ali, Firmus Woge, um agricultor de 64 anos, tenta respirar. Sua asma, agravada pelo pânico, aperta o peito. Ele recebe tratamento em uma cama improvisada, ao ar livre, sob o mesmo céu que deveria assistir a desfiles e hasteamentos de bandeira.

A independência nacional é um ato de fundação, um ponto fixo no calendário. O terremoto é o oposto: a dissolução do chão, a suspensão do tempo. Para milhares de pessoas, a pátria agora é uma tenda de lona. A casa, com suas 500 unidades danificadas, virou uma memória perigosa. O medo das réplicas é mais forte que o desejo de voltar. Em vilarejos próximos, mulheres e crianças dividem o pouco que restou. Faltam galões de água potável, e a diarreia se espalha entre os pequenos.

A geografia da Indonésia é a de um encontro tectônico permanente, um lugar onde a criação e a destruição da terra são processos diários. A burocracia do desastre responde com sua própria linguagem: Berton SP Panjaitan, da Agência de Mitigação, atualiza os números; Fathur Rahman, do Escritório de Resgate, planeja sobrevoos de helicóptero; aeronaves preparam-se para levar comida e abrigo. É um ritual técnico, necessário, diante do caos geológico. Uma tentativa de impor ordem onde o planeta decidiu revogá-la.

As estradas bloqueadas por deslizamentos isolam comunidades, transformando a província mais ao sul do país em um arquipélago dentro do arquipélago. O som que domina não é o de hinos, mas o das sirenes e, depois, o do silêncio de quem espera. Espera por ajuda, por notícias, por um momento em que o solo sob os pés pare de se mover.

No fim do dia, o que resta da celebração é a imagem de Firmus Woge, ofegante, dizendo que a falta de ar piorou com o tremor da manhã. Para ele, a liberdade mais urgente não é política. É a de poder inspirar fundo, sem medo de que tudo desabe outra vez.

Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto na Indonésia deixa 68 mortos e 200 feridos

Fontes: Agência Brasil · CNN Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.