Kharkiv, o corpo banalizado
Análise · Clara Verdi Dez mortos em um cruzamento de Kharkiv. A notícia chega na terça-feira e se dissolve no fluxo, um número que amanhã será outro.
Análise · Clara Verdi
Dez mortos em um cruzamento de Kharkiv. A notícia chega na terça-feira e se dissolve no fluxo, um número que amanhã será outro. Um cruzamento movimentado, segundo o presidente Zelensky, com agência dos correios e lojas. A banalidade do alvo é o que aterroriza. É a vida cotidiana, e não a linha de frente, que se torna o teatro de operações. O que resta depois do míssil não é um objetivo estratégico destruído, mas um cenário de devastação civil: equipes de resgate entre escombros, carros em chamas, o dia interrompido.
A guerra, em seu quarto ano, atingiu o estágio da contabilidade simétrica. A Ucrânia conta seus mortos, a Rússia conta os drones que riscam o céu de Moscou — mais de seiscentos, dizem as autoridades. Uma menina de dez anos ferida. A aritmética da destruição mútua oferece uma falsa equivalência, um balanço diário que normaliza o horror. Kiev intercepta 111 drones russos; Moscou abate 180 dos ucranianos. Os números servem para medir a capacidade técnica da defesa, mas mascaram a intenção política do ataque. E a intenção, em Kharkiv, era clara: punir civis.
Zelensky promete uma resposta, como se deve. “Obviamente, responderemos a este ataque russo”. A frase é um eco em um conflito onde cada ação é justificada como reação à anterior, uma espiral que se alimenta da própria lógica de retaliação. Para a burocracia em Bruxelas, são dados para novas sanções. Para os generais, estatísticas de uma guerra de atrito. Mas para quem estava naquele cruzamento em Kharkiv, comprando pão ou esperando o ônibus, foi apenas o fim.
As imagens que chegam — um prédio em chamas, fumaça sobre a cidade — não têm a força de antes. O olho se acostumou. Essa saturação visual é a vitória mais perversa de uma guerra longa. Ela transforma a tragédia em rotina. O corpo estendido no asfalto deixa de ser um escândalo para se tornar um dado da conjuntura. Quantos corpos ainda serão necessários para que o escândalo volte a ser visível?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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