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Jô e o apito final do caixa eletrônico

Análise · Marcos Tibúrcio A glória tem prazo de validade. O boleto, não.

Jô e o apito final do caixa eletrônico
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Análise · Marcos Tibúrcio

A glória tem prazo de validade. O boleto, não. João Alves de Assis Silva, que a arquibancada conheceu como Jô, centroavante do Corinthians, do Galo, da Seleção, aprendeu a lição da forma mais crua: entre uma delegacia e outra. Foram cinco prisões por dívida de pensão alimentícia. Cinco. O número em si já é uma biografia.

O homem que aos 16 anos guiava carro importado e que frequentou a folha de pagamento do Manchester City hoje, aos 39, fala em “outro padrão de vida”. É a linguagem de contador para explicar o abismo. O dinheiro do gol acabou. A responsabilidade por oito filhos, de cinco relacionamentos diferentes, segue correndo como um ponta-direita incansável.

Jô não está só. Ele é apenas o nome famoso de uma tragédia anônima que se repete no futebol brasileiro. O jogador que sobe como um foguete e, ao pendurar as chuteiras, despenca como uma pedra. Ele cita Ronaldo Fenômeno: apenas 1% dos atletas consegue manter o padrão financeiro depois da carreira. O que a estatística não diz é o que acontece com os outros 99%. Jô, com seus camburões e suas intimações, é a resposta em carne e osso.

A defesa que ele esboça é um retrato do drama. Tenta explicar o inexplicável para quem ficou do lado de fora do campo. “Ah, mas você jogou no City, no CSKA...”, diz ele, ecoando as cobranças das mães de seus filhos. Sim, ele jogou. Tempo verbal: pretérito perfeito. O contracheque é sempre no presente do indicativo.

Tudo bem, joguei, só que agora não jogo mais. Tenho outro padrão de vida, tenho que diminuir.

A frase é um réquiem. É o epitáfio da carreira de quase todo jogador. O atleta vive num tempo emprestado, uma década, talvez duas, de salários que um cidadão comum não verá em dez vidas. Esquece-se de que o apito final não soa apenas para o corpo, mas para o caixa eletrônico. O problema é que a vida, lá fora, continua em dois tempos de 45 e mais os acréscimos que o destino quiser dar.

O banco de reservas no 7 a 1 foi um posto de observação privilegiado da derrocada de uma geração. A cela fria é o camarote de onde Jô assiste, agora, ao desmoronamento de sua própria história. Uma história que não é sobre um mau pagador. É sobre a ilusão de que a bola é eterna.

Quando o último holofote se apaga, o que resta do ídolo além do nome na súmula?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ex-atacante Jô fala de prisões por pensão após aposentadoria

Fonte: ge