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Por que Genebra se tornou palco de negociações diplomáticas

A Suíça ocupa lugar único no imaginário diplomático internacional. Descubra as razões históricas e políticas dessa singularidade.

Por que Genebra se tornou palco de negociações diplomáticas

Análise · Clara Verdi

Há uma razão pela qual a Suíça existe no imaginário diplomático como nenhum outro país. Não é apenas a neutralidade — conceito que, aliás, Berna vem testando com mais elasticidade desde a guerra na Ucrânia. É a gramática que o lugar oferece: a neve, os hotéis discretos, os corredores onde ninguém viu ninguém. A chegada de JD Vance a solo suíço para negociações com o Irã ativa esse repertório inteiro, e é precisamente por isso que convém desconfiar da encenação antes de avaliar a substância.

A substância, no entanto, existe. As três prioridades declaradas por Vance antes de decolar — estrutura das conversas, questão nuclear, cessar-fogo no Líbano — são uma lista que qualquer chanceler dos anos 1990 reconheceria, e não por acaso: o dossier iraniano é um dos mais longevos da diplomacia contemporânea, com cicatrizes que passam pelo JCPOA de 2015, pela saída americana em 2018, pelas negociações de Viena que naufragaram sem muito ruído. Cada tentativa deixou sedimento. O que se negocia agora não começa do zero — começa de um acúmulo de desconfianças mútuas que nenhuma agenda suíça dissolve por decreto.

O que é inédito — e merece atenção — é o nível do emissário. Vice-presidentes não voam para conversas preliminares. A presença de Vance sugere que Washington quer sinalizar comprometimento político, não apenas técnico. Pode ser cálculo eleitoral, pode ser pressão tática sobre Teerã, pode ser as duas coisas simultaneamente, como costuma acontecer. O que a escolha de Vance não é, quase com certeza, é improvisação.

Do lado iraniano, a chegada da delegação à Suíça tem sua própria lógica interna. Teerã vive sob um regime de sanções que corrói a economia com uma consistência que nenhuma retórica revolucionária consegue neutralizar para sempre. Negociar não é capitular — é, na tradição persa da diplomacia, uma forma de demonstrar que se pode sentar à mesa sem perder a postura. A República Islâmica aprendeu essa dança há décadas. Sabe que comparecer já é uma concessão simbólica que precisa ser remunerada com algo concreto no caminho de volta.

A questão nuclear e o cessar-fogo no Líbano estão na mesma agenda, mas não são o mesmo problema. Tratá-los como pacote é uma aposta arriscada: o progresso em um não garante movimento no outro, e o fracasso em um pode contaminar o conjunto inteiro.

A Europa, nesse quadro, aparece como o que a Suíça sempre foi: o lugar onde as coisas acontecem sem pertencer a ninguém. Genebra empresta geografia e discreção; não empresta poder. Essa assimetria é estrutural. A União Europeia, que foi parte do JCPOA original e assistiu ao seu desmonte sem conseguir sustentá-lo, observa agora de uma posição ainda mais lateral — relevante o suficiente para ser mencionada, irrelevante o suficiente para não decidir nada. Há algo de melancólico nisso, e algo de preciso também: o continente que inventou a diplomacia moderna frequentemente a pratica em nome de outros.

O que Genebra vai produzir — se vai produzir algo — ainda não se sabe. O que já está dado é o sinal: duas potências que não se falam diretamente escolheram, outra vez, o mesmo recurso antigo. A Suíça como idioma. Como sempre, o que se diz nesse idioma é mais difícil de traduzir do que parece.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Vice-presidente dos EUA chega à Suíça para negociações com o Irã

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL