Filosofia de Ponto de Ônibus #3 — Sobre o tempo que não volta
Filosofia de Ponto de Ônibus Por Dona Carmem, 74 anos, ponto do Largo do Machado, Rio de Janeiro Minha filha, eu espero o 474 todo dia aqui nesse...
BANCA DE JORNAL — Filosofia de Ponto de Ônibus
Por Dona Carmem, 74 anos, ponto do Largo do Machado, Rio de Janeiro
Minha filha, eu espero o 474 todo dia aqui nesse ponto. Faça chuva, faça sol, faça greve. E eu te digo: esperar ônibus ensina mais sobre a vida do que qualquer faculdade.
Sabe por quê? Porque no ponto de ônibus você aprende que o tempo não é seu. O ônibus vem quando quer. Você pode reclamar, pode xingar, pode olhar o celular — mas ele só vem quando vem.
A vida é igual. Você planeja, organiza, faz lista. Mas a vida tem horário próprio. O amor chega atrasado. O dinheiro pega trânsito. A saúde, às vezes, não vem.
Meu marido morreu há doze anos. Sabe o que eu mais sinto falta? Não das coisas grandes. Sinto falta do café que ele fazia de manhã. Do barulho da chinela dele no corredor. Do jeito que ele falava "Carmem" quando queria me mostrar algo no jornal.
O tempo grande — aniversários, Natal, viagens — esse a gente fotografa, guarda, lembra. Mas o tempo pequeno — o café, a chinela, o nome falado baixinho — esse evapora.
E é o tempo pequeno que faz falta.
Então minha dica é essa: presta atenção no tempo pequeno. O sorriso do seu filho quando chega da escola. O cheiro do almoço de domingo. A mão do marido na sua enquanto assiste televisão.
Esse tempo não volta. Nem de ônibus.
Filosofia de Ponto de Ônibus — Dona Carmem fala às terças na Banca de Jornal